6.12.12

Resistência e aliados






«M. Rajoy, com o apoio florentino de Mario Monti e a cumplicidade de François Hollande, tem conseguido até agora resistir e abrir outras vias para responder às dificuldades de Espanha, tendo entretanto obtido da Comissão Europeia um empréstimo de 37 mil milhões para reestruturar o sector bancário, com juros a 1%, enquanto (é bom lembrá-lo) nós quase pagamos quase 4%! Mas o horizonte continua muito carregado. Resistir é talvez o termo que melhor caracteriza o estado de alma que está a generalizar-se nos povos do Sul da Europa, onde toda a gente já percebeu que nos últimos dois anos a Alemanha tem seguido uma política estritamente nacional, e que o fez e continua a fazer colando-se cinicamente aos mercados, transformando as contingências do momento em necessidades estruturais da sua conveniência - assim se impondo cada vez mais a toda a Europa. Ironia do destino ou erro de estratégia, o facto é que o euro, que foi criado para controlar uma assustadora Alemanha reunificada, se transformou entretanto no instrumento da hegemonia alemã, perante a cegueira, a indolência e a irresponsabilidade dos seus parceiros, que a História julgará severamente. Pressinto, por isso, que há palavras que vão aparecer cada vez mais no nosso vocabulário corrente: "resistência" é certamente uma delas, "aliados" será talvez a outra. E a sua conjunção devia, por si só, fazer pensar muita gente que anda muito distraída. Gente que ainda não percebeu que a própria Europa está a tornar-se - mais do qualquer das clivagens políticas tradicionais - no tópico político mais fracturante nos países da União Europeia.»


 


M. M. Carrilho, DN

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