29.12.12

A ideia de "pensar o mundo"


 


A melhor ideia, rara entre nós. Manuel Maria Carrilho intitulou assim os dois volumes que juntam a sua obra de 30 anos. De repente não me consigo recordar de outra publicação doméstica, do género e em 2012, que justifique sequer uma nota de rodapé. Talvez porque o pensamento é um trabalho de dias que levam anos a chegar e não o fruto espúrio de uma comoção momentânea ou do chico-espertismo comunicacional tão em voga. Os dois livros de Carrilho têm a vantagem de poder ser lidos sem nenhuma ordem particular e, nessa medida, podem servir de "consulta" para tentar perceber em permanência o que nos rodeia. Têm mais "futuro" dentro deles do que muitos tratados e panfletos, escritos a centenas de mãos, sobre "futuros" anunciados que nunca chegam a chegar. A circunstância de o autor ter uma filiação partidária bem definida não diminui o estímulo da leitura. Pelo contrário, Carrilho filia-se numa não tradição intelectual portuguesa que é a heterodoxia e que ele lá explica quando, adolescente, adquiriu o volumito de Eduardo Lourenço com esse título. Nessa altura, Lourenço introduzia uma conversa nova numa paróquia dividida entre marxistas e reaccionários já com a Europa por fito. Em 2012, Carrilho foi precisamente dos que mais chamou a atenção para a necessidade de olharmos para nós a partir da política e da Europa - e para a Europa a partir da política, bem como a partir de uma certa ideia de cosmopolitismo, de imprevisibilidade e de complexidade (sem as perguntas certas nunca chegaremos às respostas adequadas) - em vez de reduzirmos tudo ao fatalismo numerológico ou à superficialidade inconsequente. «São muitos os factores que tornam hoje a actividade política extraordinariamente difícil: a globalização e a perda de soberania das nações, o individualismo e a erosão da representatividade, a mercantilização da informação e a sua tabloidização. (...) As lideranças do futuro terão de resistir à armadilha do voluntarismo, seja na forma que conduz a contraproducentes provas de força com a sociedade, seja quando ele se refugia num qualquer tipo de determinação mais ou menos iluminada. São outras as qualidades que se requerem aos reformadores do nosso tempo. Acima de tudo, o que conta é mostrar capacidade de composição com a própria sociedade: na sua diversidade, na sua fragilidade e na sua complexidade. Não só porque o voluntarismo afasta e exclui, enquanto a composição motiva e integra, mas também porque só assim se consegue criar o espaço de manobra necessário para lidar com os problemas do nosso tempo.»

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