11.12.12

Manoel, a visão total


 


Nesse dia frio de Janeiro de 1986, meti-me cedo num comboio para o Porto e a meio da tarde estava sentado numa sala da sua casa a "entrevistar" Manoel de Oliveira. O João Amaral e o Semanário de Cunha Rego "mandaram-me" lá. Ia aparecer o Soulier de Satin, baseado na obra homónima de Claudel. Falámos longamente, rodeados pelas fotografias da família. Encontrámo-nos, de novo, num outro comboio, cerca de três anos depois. Eu vinha de Guimarães e ele entrou em Gaia. Recordei-lhe a entrevista. Estávamos praticamente sozinhos na carruagem de 1ª classe da CP pré-Alfa Pendular. Jovial, amável, conversador, sem afectações. De lá para cá, envelheci muito mais do que ele jamais envelhecerá e o mundo em que o situava desapareceu-me debaixo dos pés. Eduardo Prado Coelho, sobre Manoel, em A Mecânica dos Fluídos. «Como sabem, a gama de cor é enorme e o que é visível é muito pequeno. Para a nossa vista o que está aquém dos raios vermelhos já não se vê e o que está para além dos raios violetas também já se não vê. Se nós tivéssemos uma visão total, talvez que pudéssemos ver a alma...» É nesse labirinto luminoso da alma que o cinema de Manoel de Oliveira viaja. Os brutos acham-no "parado", uma vulgaridade sem tom nem som. O ironista Manoel, no dia do seu aniversário, como se deve rir deles. Parabéns.

1 comentário:

Marques disse...

E parabens ao autor do blogue,por apreciar Oliveira com naturalidade,provavelmente contra a opinião tabloidística de boa parte dos seus leitores. Acontece muito,ter razão antes de tempo,e sofrer por isso.