
«Não há paz na terra, nem homens de boa vontade. O discurso político não ajuda: se é o do poder, fala em nome de uma recuperação, mas desde logo anuncia que o caminho é longo, lento e eriçado de dificuldades; se é o da oposição, mostra uma vocação irreprimível para generalizar e instrumentalizar protestos, indignações, casos-limite. Os adversários enjeitam quaisquer responsabilidades no status quo e vão-se esquartejando verbalmente, sem conseguirem pôr-se de acordo quando ao fundo dos problemas e sem se entenderem quanto ao essencial. A comunicação social que de tudo isso vai dando notícia, cada vez com mais dificuldades para sobreviver e cada vez com mais estagiários em feroz competição lá onde deveria haver sobretudo profissionais experientes, faz como certos políticos: agarra-se a minudências insignificantes para insinuar coisas despropositadas, enxerga subtilezas dialécticas onde elas não têm lugar, descortina sibilinamente perífrases de agressão disfarçada que não existem, extrai a fórceps conclusões a contrario sensu que não têm pés nem cabeça. Instala-se a confusão, a que se segue a discussão, a que se segue a mistificação, a que se segue a manipulação... Nesse desconcerto, cada imagem do mundo faz menos sentido do que a anterior e há muitos interesses que se aproveitam dele para levar água ao seu moinho dando o menos possível nas vistas. Vive-se sob a pressão do imediato, de um imediato teratológico e irremediável. Há cada vez menos capacidade do homem comum para enquadrar e compreender o que lhe acontece e acontece à sua família ou à dos vizinhos: pais, irmãos, filhos, parentes, velhos e novos, gente cujas vidas em concreto se vão passando agora entre a angústia do desemprego e a do risco de tudo se desmoronar. Se se teme, logo à partida, que as soluções adoptadas acabem por falhar umas atrás das outras sob o impacto brutal de uma realidade dificilmente controlável, também as análises da situação que se vive são contraditórias, frequentemente eivadas de preconceitos ideológicos que nada resolvem, repassadas de posicionamentos teóricos que, por sua vez, não conseguem abarcar os mecanismos que fazem mover a realidade, ou marcadas por apelos revolucionários e malabarismos verbais que não levam a lado nenhum. Nas desencontradas retóricas a que se vai assistindo, são poucas ou nenhumas, e pouco ou nada convincentes, as soluções concretas propostas em alternativa. Ter-se-á vivido os últimos dias com a sensação de se estar a passar um Natal feliz? E poder-se-á esperar que o próximo vai ser melhor? Apesar de tudo, as pessoas não deixam de se agarrar a "uma pequenina luz bruxuleante", como diria Jorge de Sena.»
*
Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumiére
just a little light
una piccola…em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a advinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
Indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
No meio de nós.
Brilha.
1 comentário:
Aplaudo o texto e o poema.
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