24.12.12

A pobre gruta

Enquanto cristão, o Natal é para mim apenas o que o Vitor Cunha Rego uma vez descreveu, «Jesus Cristo nascido na palha de uma pobre gruta», um acto diário, persistente e inspirador «de um radicalismo evangélico que obriga o homem a ir ao fundo das coisas e a não se resignar perante as injustiças, por mais que a mansidão lhe tenha sido ensinada.» Quanto ao resto - que, para tanta gente, é o tudo do Natal - sigo Alberto Caeiro, "meto-me para dentro, e fecho a janela".


 


Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito.
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.

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