27.12.12

A ideia de "ano"


 


A quatro dias do fim do ano da graça de 2012, pode começar a fazer-se um "balanço". Vale a pena? Há alguns anos que o ano dito civil deixou de coincidir com os calendários e vice-versa. A monotonia da indiferença igualizou por baixo, entre outros, o tempo. Tanto faz 2010, 2005, 2009, 2006 ou 2012. Como quase tudo foi tomado pela contabilidade, a ideia parva de "ano" cola sobretudo a exercícios financeiros a maior parte dos quais nem sequer são feitos nos países a que dizem respeito. Que o digam os "países de programa", uma expressão medonha facilmente associável a outra coisa. Que fica? Não adianta olhar excessivamente para trás. O passado está pejado de cruzes. As dos nossos mortos, as dos nossos "ideais", as dos nossos desejos, as das nossas múltiplas vidas. Todo o homem é um ser complexo e só os pobres de espírito podem supor que tudo corre como numa auto-estrada no meio do deserto, sem trânsito e sem outra paisagem que não o sol e as nuvens. Proust escreveu que era preciso guardar um pouco de céu azul na nossa vida, logo esse nervoso genial que se fechou num quarto para remoer "o tempo perdido". Não, não adianta olhar para trás. Provavelmente houve sempre um tempo para tudo da mesma forma que haverá agora um tempo para um outro tudo. Nas magníficas páginas iniciais do seu "Saint Genet - comédien et martyr", Sartre adverte que sermos ainda o que vamos deixar de ser e sermos já o que seremos é a mais solene e trágica das nossas condições. Olho para o futuro - uma hora, um dia, um mês, um ano? - com a esperança do "progressista" que não sou. Ou seja, nenhuma.

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