2.12.12

Os avoengos de 1979


 


Acompanho o Pedro Santana Lopes nesta evocação da vitória da Aliança Democrática - the one and only - de 2 de Dezembro de 1979. A AD juntava o PSD, o CDS, o PPM, os Reformadores e outros independentes nas eleições legislativas intercalares convocadas por Eanes na sequência do fracasso dos governos ditos de iniciativa presidencial. Em apenas cinco anos, a Direita "legalizava-se" perante a revolução e com maioria absoluta. Durou praticamente o tempo de vida que restava a Sá Carneiro. Acompanhei o momento no Hotel Altis. Valia a pena o empenho político (aos dezanove anos tudo vale a pena)  porque os envolvidos eram de valia. Entrei nisso tudo pela mão do Medeiros Ferreira que é um dos espíritos mais livres da vida pública nacional. Quem nasceu "nisto", dentro destes inverosímeis trinta e dois anos de regime, dificilmente poderá perceber o simbolismo daquela tão já longínqua noite. Sá Carneiro venceu por ruptura. Em 1979 isso parecia uma missão impossível, isto é, a Direita alternar no governo com a Esquerda quando o poder ainda era amplamente dominado pela tropa. A vida política de Sá Carneiro nunca foi um cortejo de felicidade ou de previsibilidade. Até 2 de Dezembro de 1979, poucas vezes foi levado a sério dentro e fora do seu partido. E daí até ao seu trágico desaparecimento, nada foi fácil. Pressentiu sempre que morreria cedo - pathos e hubris, hubris e pathos, inseparáveis. O que teria sido a vida política portuguesa com ele, dentro ou fora dela, saíndo e entrando, separando e unindo, permanecerá para sempre uma incógnita. O ano que aí vem será seguramente um dos mais tremendos do regime e decerto não haverá lugar para quaisquer voluntarismos amadores e estéreis. Oxalá a Direita de hoje saiba, então, estar à altura dos ilustres avoengos de 1979.

1 comentário:

monge silésio disse...

Sem pensamento, João, sem pensamento. Hoje, liberais, conservadores, social(istas) democráticos ou democristãos juntam-se perante uma evidência: não há dinheiro, e quem marca o tempo não somos nós.
Se já antes era uma confusão no ideário, agora é-se obrigado a aplicar num Estado-Normal aquilo que seria feroz socialismo.

Os tempos são outros. Agora, os politicos não tiveram vida na sociedade civil, tiveram uns arranjos. Navegam ao dia, e nem sequer ousam prevêr.