
«A necessidade de se partir de uma concepção moderna e arejada daquilo que se entende por Humanidades, a crise que tem levado ao apagamento das disciplinas correspondentes no ensino secundário e no universitário, o papel que elas podem ter na cidadania activa e na preservação dos valores identitários, a evolução histórica do conceito que lhes corresponde, mais outros temas afins, como os do cânone literário, do ensino da literatura e da presença dos grandes autores na escola, ou o das políticas da língua, são objecto dos ensaios contidos neste livro [As Humanidades, os Estudos Culturais, o Ensino da Literatura e a Política da Língua Portuguesa, Almedina, 2010*], testemunhando de uma coerência de décadas no pensamento e no magistério do autor [Vítor Aguiar e Silva]. Propondo uma reflexão amplamente documentada e aberta à problemática contemporânea, Aguiar e Silva mostra como o pós-modernismo, na lógica cultural do capitalismo tardio, vem determinando uma empresarialização da universidade e levando ao abandono progressivo de valores e saberes que decorrem das Humanidades, dos "studia humanitatis e litterae humaniores, de uso plurissecular, designando nomeadamente os seguintes campos disciplinares: línguas e literaturas clássicas; línguas e literaturas modernas; filologia; linguística; retórica; poética, história e crítica literárias e literatura comparada; filosofia, desde a filosofia moral à filosofia política, e história, em especial a história da arte, a história das ideias e a história da cultura" (doc. cit.). Este riquíssimo núcleo de áreas disciplinares relaciona-se com o objecto de outras designações (ciências humanas, ciências do espírito, ciências sociais), mas o conceito de Humanidades tem, como Aguiar e Silva também escreve, "uma densidade memorial e histórica que é uma herança irrenunciável". A reabilitação e revalorização das Humanidades não deveriam levar a nostalgias passadistas em confronto com as transformações da sociedade, mas a persuadir todos os interessados de que, sem elas e sem a sua capacidade de integrar equilibradamente herança cultural e a modernidade, o nosso conhecimento do mundo fica irremediavelmente desumanizado e prejudicado. E nós também. Combater a crise hoje em dia implica ter tudo isto presente e pô-lo em prática sem demora.»
* anterior à praga acordográfica que assolou a Almedina
1 comentário:
Muito, muito bem.Haja pelo menos duas ou três vozes que se manifestem contra esta pobreza do nosso ensino das Humanidades e que se insurjam contra quem nos andou a enganar há dezenas de anos com mediocridades e inconsequências.Belíssimo post. Venham mais deste teor e sobre esta área do saber para ver se se consegue acordar o Nuno Crato para o que está esquecido (?) há tanto tempo.
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