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12.9.14

«Uma tremenda quantidade de vida para acarinharmos»



Durante muito tempo evitei ler Património de Philip Roth. Li-o em dois dias (mais adequadamente noites) esta semana. Tem como subtítulo "uma história verdadeira" e, de facto, relata sem lamechices o final da vida do pai do autor. É mais do que uma parte da sua autobiografia e menos, muito menos, que ficção mas colhe o melhor de ambos. Se afirmasse que "conta" o amor não estaria a exagerar. Não tanto o de um filho por um progenitor que decai fisicamente, sem regresso de um tumor cerebral, mas do amor como, por exemplo, o veio a filmar, muito tempo depois, Haneke em Amor. Amor, também, pela América onde a família Roth, e os amigos da família Roth, passaram as suas vidas transumantes. Amor por gestos aparentemente insignificantes cuja genuinidade lhes retira o pathos da inevitabilidade. E, depois, um valentíssimo amor pela escrita que faz de Roth uma figura indispensável da literatura contemporânea. Susan Sontag disse numa entrevista que não tinha pachorra para "ler" a vida sexual de Philip Roth, querendo com isso significar que porventura estaria farta daquele "realismo" simultaneamente irónico, franco e despojado dos livros do outro. Todavia, nem isso nem tão pouco a evidência judaica recorrente (Roth, aliás, confessa não ser propriamente "religioso" por comparação com o pai) diminuem as obras de arte em que, de uma maneira geral, os seus livros consistem. «Olhei para o seu pénis. Não creio que o tivesse visto desde que era rapazinho, e nessa altura costumava pensar que era muito grande. E revelava-se que tinha razão. Era grosso e substancial, a única parte do seu corpo que não parecia nada velha. Pelo contrário, parecia em muito boa forma. Mais robusto em diâmetro, reparei, do que o meu próprio. "Ainda bem para ele", pensei, "Se lhe deu algum prazer, a ele e à minha mãe, tanto melhor." Finalmente, a vida. Património, que parece descrever a morte, é sobretudo um belíssimo texto de exaltação da vida. «Limpamos a merda do nosso pai porque ela tem de ser limpa, mas na esteira desse limpar tudo quanto nos resta para sentir é sentido como nunca antes foi. Também não era a primeira vez que compreendia isto: depois de contornarmos a repugnância, ignorarmos a náusea e mergulharmos para além dessas fobias fortificadas como tabus, resta uma tremenda quantidade de vida para acarinharmos.»

18.5.11

ROTH


A América não é apenas aquilo que a foto denota ou um carcereiro embotado a sugerir que é preciso vigiar um homem 24 horas por dia não vá ele suicidar-se! Medem os outros pela sua bruteza intelectual, coitados. A América é Whitman, Emerson, Pound, Vidal, Mailer, Roth e afins. E não há noites urbanas como as de Nova Iorque, nas palavras de Pound. O lixo correcto, perfeitamente representado pelo Obama do birth certificate e por aquilo ali em cima, não me interessa nada. É apenas isso. Lixo. Philip Roth recebeu o Man Booker 2011 pela sua obra completa. Getting people right is not what living is all about anyway. It's getting them wrong that is living, getting them wrong and wrong and wrong and then, on careful reconsideration, getting them wrong again. That's how we know we're alive: we're wrong. Maybe the best thing would be to forget being right or wrong about people and just go along for the ride. But if you can do that - well, lucky you. A prosa de Roth recebe-se como uma epifania da morte. Attachment is ruinous and your enemy. Joseph Conrad: He who forms a tie is lost. That you should sit there looking like you do is absurd. You tasted it. Isn't that enough? Of what do you ever get more than a taste? That's all we are given in life, that's all we're given of live. A taste. There is no more. É aproximadamente um límpido evangelho pagão do qual foi eliminada toda e qualquer esperança em Deus ou no homem. Afinal, não é a mesma coisa?

Foto: Do Médio Oriente e Afins no qual recomendo, aos não imbecis simples ou complexos, a leitura do editorial de

ROTH


A América não é apenas aquilo que a foto denota ou um carcereiro embotado a sugerir que é preciso vigiar um homem 24 horas por dia não vá ele suicidar-se! Medem os outros pela sua bruteza intelectual, coitados. A América é Whitman, Emerson, Pound, Vidal, Mailer, Roth e afins. E não há noites urbanas como as de Nova Iorque, nas palavras de Pound. O lixo correcto, perfeitamente representado pelo Obama do birth certificate e por aquilo ali em cima, não me interessa nada. É apenas isso. Lixo. Philip Roth recebeu o Man Booker 2011 pela sua obra completa. Getting people right is not what living is all about anyway. It's getting them wrong that is living, getting them wrong and wrong and wrong and then, on careful reconsideration, getting them wrong again. That's how we know we're alive: we're wrong. Maybe the best thing would be to forget being right or wrong about people and just go along for the ride. But if you can do that - well, lucky you. A prosa de Roth recebe-se como uma epifania da morte. Attachment is ruinous and your enemy. Joseph Conrad: He who forms a tie is lost. That you should sit there looking like you do is absurd. You tasted it. Isn't that enough? Of what do you ever get more than a taste? That's all we are given in life, that's all we're given of live. A taste. There is no more. É aproximadamente um límpido evangelho pagão do qual foi eliminada toda e qualquer esperança em Deus ou no homem. Afinal, não é a mesma coisa?

Foto: Do Médio Oriente e Afins no qual recomendo, aos não imbecis simples ou complexos, a leitura do editorial de

14.7.10

TENTATIVA E ERRO


«Getting people right is not what living is all about anyway. It's getting them wrong that is living, getting them wrong and wrong and wrong and then, on careful reconsideration, getting them wrong again. That's how we know we're alive: we're wrong. Maybe the best thing would be to forget being right or wrong about people and just go along for the ride. But if you can do that - well, lucky you.»

Philip Roth, American Pastoral (via Rui Passos Rocha, A Douta Ignorância)

TENTATIVA E ERRO


«Getting people right is not what living is all about anyway. It's getting them wrong that is living, getting them wrong and wrong and wrong and then, on careful reconsideration, getting them wrong again. That's how we know we're alive: we're wrong. Maybe the best thing would be to forget being right or wrong about people and just go along for the ride. But if you can do that - well, lucky you.»

Philip Roth, American Pastoral (via Rui Passos Rocha, A Douta Ignorância)

25.11.09

TIPICAMENTE


É ficção, "a novel" em inglês. Mas não é preciso seguir Oscar Wilde para supor que vida pode imitar aquilo. «She wanted only to be free of him and to satisfy the common enough human wish to move on and try something else.» Ele não pode nem é suposto perceber isto que é , aliás, da vida. E gritou-lhe: «You cannot nullify everything.» Pode. Pode-se. Tipicamente.

TIPICAMENTE


É ficção, "a novel" em inglês. Mas não é preciso seguir Oscar Wilde para supor que vida pode imitar aquilo. «She wanted only to be free of him and to satisfy the common enough human wish to move on and try something else.» Ele não pode nem é suposto perceber isto que é , aliás, da vida. E gritou-lhe: «You cannot nullify everything.» Pode. Pode-se. Tipicamente.

17.10.09

ROTH


Duma entrevista ao suplemento "cultural" do Expresso (fosse eu o escritor e tinha atirado o entrevistador do 21º andar). Pergunta: «O que mudou na sua filosofia (sic) de escrita desde o primeiro livro até "The Humbling"?» Resposta: «Não há nenhuma filosofia envolvida. A principal alteração é o aprofundamento da experiência de vida. Quando se começa a escrever na casa dos 20 anos, só temos essas experiências, que mesmo assim podem ser vividas e moldadas para ficção. Mas agora já ando aqui há muito tempo. Já vi muita coisa. Acho que a diferença mais importante é essa.» Pergunta: «Conhece algum escritor português?» Resposta: «Não.» Pergunta: «Quando sabe que o livro está terminado?» Resposta: « Simplesmente sei.» Pergunta: «Como vê o futuro da literatura? » Resposta: «Acho que os leitores vão acabar. O público do romance diminui a toda a hora, em grande parte devido à tecnologia, que afasta as pessoas. O ecrã sempre distraiu as pessoas da palavra escrita, é um aparelho que exerce enorme poder. Primeiro foi o ecrã do cinema, depois a televisão e agora o computador...»

ROTH


Duma entrevista ao suplemento "cultural" do Expresso (fosse eu o escritor e tinha atirado o entrevistador do 21º andar). Pergunta: «O que mudou na sua filosofia (sic) de escrita desde o primeiro livro até "The Humbling"?» Resposta: «Não há nenhuma filosofia envolvida. A principal alteração é o aprofundamento da experiência de vida. Quando se começa a escrever na casa dos 20 anos, só temos essas experiências, que mesmo assim podem ser vividas e moldadas para ficção. Mas agora já ando aqui há muito tempo. Já vi muita coisa. Acho que a diferença mais importante é essa.» Pergunta: «Conhece algum escritor português?» Resposta: «Não.» Pergunta: «Quando sabe que o livro está terminado?» Resposta: « Simplesmente sei.» Pergunta: «Como vê o futuro da literatura? » Resposta: «Acho que os leitores vão acabar. O público do romance diminui a toda a hora, em grande parte devido à tecnologia, que afasta as pessoas. O ecrã sempre distraiu as pessoas da palavra escrita, é um aparelho que exerce enorme poder. Primeiro foi o ecrã do cinema, depois a televisão e agora o computador...»

16.10.09

UM ESCRITOR


Numa entrevista a um semanário português, Philip Roth diz que o Nobel não é para grandes escritores. Os nossos literatos, os do costume, não irão dizer que o homem é ressabiado?

UM ESCRITOR


Numa entrevista a um semanário português, Philip Roth diz que o Nobel não é para grandes escritores. Os nossos literatos, os do costume, não irão dizer que o homem é ressabiado?

26.7.08

A NOITE DO MUNDO


A RTP1 passa à noite o filme de Robert Benton, A culpa humana, baseado no livro A Mancha Humana (The Human Stain) de Philip Roth (tradução na Dom Quixote). O filme é perfeitamente esquecível, apesar das interpretações de Anthony Hopkins e Nicole Kidman. Roth, no essencial, conta a história de alguém que foi expulso da sua vida. Coleman Silk é um homem perseguido pela cor oculta no seu "rosto branco como a neve" na América racista e "profunda" dos anos 40, 50 e 60, agora pelos vistos em acelerado processo de "compensação" através da "obamomania". É uma palavra ("spook") proferida numa aula por Coleman, já no fim dos anos Clinton - referida a dois estudantes que ele ignorava serem negros - que leva à saída forçada da universidade da qual fora reitor, em nome do "correcto". Com a morte súbita da mulher, Coleman descobre Faunia, a mulher da limpeza da universidade, mais nova, sozinha depois de um marido errado e do desaparecimento dos filhos pequenos. Faunia nunca quer acordar ao lado de Coleman e diz-lhe a toda a hora que ali não há lugar para o "amor". Só no último dia das suas vidas aceita a ideia de "partilhar" o afecto de Coleman. A história é contada pelo vizinho de Coleman, o escritor Zuckerman, um dos alter ego de Philip Roth. A escrita de Roth, adaptada aos diálogos do filme, fala de vergonha - de uma imensa e escondida vergonha "identitária"-, da rejeição, da perda e da solidão final. Como na famosa frase de Hegel, «há uma noite que se descobre quando olhamos um homem nos olhos - mergulha-se então o olhar numa noite que se torna terrível: a noite do mundo que avança ao encontro de cada um de nós.»

A NOITE DO MUNDO


A RTP1 passa à noite o filme de Robert Benton, A culpa humana, baseado no livro A Mancha Humana (The Human Stain) de Philip Roth (tradução na Dom Quixote). O filme é perfeitamente esquecível, apesar das interpretações de Anthony Hopkins e Nicole Kidman. Roth, no essencial, conta a história de alguém que foi expulso da sua vida. Coleman Silk é um homem perseguido pela cor oculta no seu "rosto branco como a neve" na América racista e "profunda" dos anos 40, 50 e 60, agora pelos vistos em acelerado processo de "compensação" através da "obamomania". É uma palavra ("spook") proferida numa aula por Coleman, já no fim dos anos Clinton - referida a dois estudantes que ele ignorava serem negros - que leva à saída forçada da universidade da qual fora reitor, em nome do "correcto". Com a morte súbita da mulher, Coleman descobre Faunia, a mulher da limpeza da universidade, mais nova, sozinha depois de um marido errado e do desaparecimento dos filhos pequenos. Faunia nunca quer acordar ao lado de Coleman e diz-lhe a toda a hora que ali não há lugar para o "amor". Só no último dia das suas vidas aceita a ideia de "partilhar" o afecto de Coleman. A história é contada pelo vizinho de Coleman, o escritor Zuckerman, um dos alter ego de Philip Roth. A escrita de Roth, adaptada aos diálogos do filme, fala de vergonha - de uma imensa e escondida vergonha "identitária"-, da rejeição, da perda e da solidão final. Como na famosa frase de Hegel, «há uma noite que se descobre quando olhamos um homem nos olhos - mergulha-se então o olhar numa noite que se torna terrível: a noite do mundo que avança ao encontro de cada um de nós.»

12.1.08

CAMINHAR PARA O FIM



«MUSIC: Strauss's Four Last Songs. For the profundity that is achieved not by complexity but by clarity and simplicity. For the purity of the sentiment about death and parting and loss. For the long melodic line spinning out and the female voice soaring and soaring. For the repose and composure and gracefulness and the intense beauty of the soaring. For the ways one is drawn into the tremendous arc of heartbreak. The composer drops all masks and, at the age of eighty-two, stands before you naked. And you dissolve.»

Philip Roth, Exit Ghost, 2007 (Video: Leontyne Price, Im Abendrot, Vier Letzte Lieder, de Richard Strauss)

CAMINHAR PARA O FIM



«MUSIC: Strauss's Four Last Songs. For the profundity that is achieved not by complexity but by clarity and simplicity. For the purity of the sentiment about death and parting and loss. For the long melodic line spinning out and the female voice soaring and soaring. For the repose and composure and gracefulness and the intense beauty of the soaring. For the ways one is drawn into the tremendous arc of heartbreak. The composer drops all masks and, at the age of eighty-two, stands before you naked. And you dissolve.»</em>

Philip Roth, Exit Ghost, 2007 (Video: Leontyne Price, Im Abendrot, Vier Letzte Lieder, de Richard Strauss)

6.6.07

TODO O MUNDO


A Feira do Livro de Lisboa vale hoje uma deslocação para adquirir a tradução de Everyman, de Philip Roth, na Dom Quixote, com o título "Todo-o-Mundo" e "livro do dia". Capa igual a esta.