O ministro "único" das finanças da zona euro, o sr. Schauble, na apresentação parlamentar do seu orçamento, decretou ser «um "erro" pensar que atenuar a disciplina orçamental gerará crescimento na Europa. Violar as regras orçamentais com a expectativa de estimular o crescimento económico "é um erro, não encontraremos o caminho".» E acrescentou que «não podemos comprar empregos e crescimento com dinheiro público» porque «isso também não ajuda o Banco Central Europeu (BCE) porque este faz o que pode, mas não pode impor o crescimento, como se vê actualmente.» De uma penada, o ministro "único" esfolou dois coelhos com uma só machadada. Por um lado, impõe aos executivos europeus mais débeis, como o nosso, a continuação da "quadratura orçamental" centrada na austeridade e nos défices estatutários independentemente do que possa suceder às respectivas economias: esqueçam o investimento, castiguem o consumo, sovietizem as relações entre operadores económicos e sociais, recomenda a criaturinha. Acabaram os "défices virtuosos" para dar lugar aos "défices Schauble" que nós particularmente engolimos sem sequer inalar primeiro. Depois, com a gentileza de um viking, explicou ao sr. Draghi que escusa de jurar pelo crescimento e pela defesa da "economia real" através da calibragem da taxa de juro directora. A "economia real" é o que o sr. Schauble disser que é e não se fala mais nisso. Aliás, a desculpa para manter tudo como tem estado é justificada pela abdicação política nos sucessivos Conselhos Europeus: «Cumprir as promessas implica também respeitar as regras europeias, toda a gente deveria respeitar as regras europeias, porque decidimos em conjunto.» Schauble não existe apenas porque foi escolhido pela sra. Merkel. Existe e manda porque a generalidade dos "dirigentes" europeus participam naqueles Conselhos como vulgares funcionários, uma espécie de estenógrafos políticamente eunucos, que só tomam notas e aplicam diligentemente o que os mandam aplicar. Entre nós, chefiados por um dos mais eficazes funcionários da criatura viking, a "economia real" segue assim depois do aumento do défice da balança comercial e da diminuição das "expectativas" quanto ao crescimento da referida economia no 1º semestre do ano: «O número de jovens que não estudam nem trabalham não tem parado de crescer. Os chamados “nem-nem” representam já quase 17% da população nacional entre os 15 e os 29 anos, segundo o estudo anual da OCDE sobre o sector da Educação, que foi apresentado nesta terça-feira. Portugal é mesmo um dos países onde esta realidade mais se acentuou (...) Neste retrato, Portugal está quase sempre entre os países onde a crise teve um mais forte impacto sobre o sector da educação e o acesso dos jovens ao mercado de trabalho. O desemprego atinge 10,5% dos diplomados nacionais, ao passo que a média da OCDE se fica pelos 5%.» O ministro "único" deve ficar satisfeito com estas proezas da periferia.
Foto: JOHN KOLESIDIS/REUTERS
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