Passa hoje o 37º aniversário da morte de Maria Callas. Sem ela, o canto lírico contemporâneo teria sido algo completamente distinto daquilo que foi e é. Poderá mesmo dizer-se que a ópera (ou algumas óperas em concreto) naquela asserção do realismo do excesso que a caracteriza enquanto espectáculo total, como que foram inventadas para "esperar" pela Callas. É o caso de Bellini e de muito Donizetti. Toda a imensa gravitas, todo o pathos e todo o bathos do belcanto se fundiram, como um cadinho, na sua voz incomparável. Incomparável não exactamente por ser quimicamente pura - não era - mas porque a aliança da respectiva extensão com uma extraordinária capacidade histriónica, fazia de cada apoteose, de cada recusa e, para o fim, de cada fracasso um momento único e irrepetível. Callas possuía a força das suas fraquezas, a grandeza das suas fragilidades, o sobre-humano da sua condição muito humana. Parecia que tinha uma vida fácil e frívola - começou gordíssima e acabou estilizada, separou-se do único homem que verdadeiramente a amou - Meneghini - para cair nos braços ambíguos do pavoroso milionário grego, posou moda. Entre o cume e o eclipse os anos foram demasiado poucos. Não há herdeiras para fenómenos destes que raramente acontecem. Callas persiste orgulhosamente solitária e fulgurante num universo que parece ter existido propositadamente para ela. E que, sem ela, trivializou-se e só por defeito brilha.
Clip: Bellini, Il Pirata. Hamburgo, Maio de 1959. Dir. Nicola Rescigno
1 comentário:
Belíssima sensibilidade.
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