A política portuguesa, já em plena rodagem para o longo calvário eleitoralista de mais de um ano, segue previsível e, de uma maneira geral, medíocre. Agora foi-lhe adicionado um "condimento" que, na coligação existe desde o início e que no PS começou em Maio com o "assalto" de António Costa: o taticismo traiçoeiro. Mas, para isto, mais vale ler "romances" de, por exemplo, John Le Carré. Vem lá tudo explicadinho por outras tramas, por outras personagens, por outras ambientes. Ou então rever os três Padrinhos ou a tetralogia do Wagner. Qualquer coisa destas é muito mais agradável e verosímil do que as peripécias paroquiais. Entretanto em França, a, como agora se diz, "ex-companheira" do sr. Hollande, Valérie Trierweiler, publicou um livro com 200 mil exemplares à cabeça. Para se aliviar da traição conjugal onde o presidente da França a trocou por uma actriz deslavada mas com aquele arzinho alegadamente sexy do bed style. Presumivelmente a vida íntima de um político com outra pessoa (não a sua vida privada em sentido mais amplo) não deve ser lavada no tanque de água suja da opinião pública. Trierweiler, a quem assiste todo o direito do mundo a se "vingar" como entender, acabou afinal sentada na mesma lambreta ridícula na qual Hollande ia ter ter com a outra. Os "pormenores" que achou por bem "revelar" não alteram significativamente a "imagem" que tínhamos de Hollande - a de um homem médio, com poder, sem grande densidade política e, instintualmente, pouco diferente do rapaz do talho ou do liceu. A graçola dos "desdentados" constitui um argumentário político para o qual manifestamente Trierweiler não tem talento. O livro que se segue, do até há pouco ministro da economia, será porventura mais preocupante para o presidente do que a dor de corno em letra de forma da jornalista do Paris Match. Até na alcova a França perdeu grandeza. Salvo De Gaulle e, talvez, Pompidou pelo menos quanto a mulheres, os presidentes da V República sempre mantiveram vidas privadas muito "liberais". Mitterrand, por exemplo, "escondeu" até quando entendeu uma filha e a mãe dessa filha que por acaso até era directora de um dos mais conspícuos museus de Paris. Sarkozy divorciou-se e casou-se chefe de Estado. Nada disto os perdeu significativamente embora a leviandade do último presidente da direita não o tivesse ajudado nas outras coisas. O sem jeito de Hollande, que inclui o deslumbramento adolescente por uma actriz chocha, incomparável a Valérie ou a Royal, acaba por não ser propriamente uma "novidade". Trierweiler provavelmente não leu Le Carré que talvez a tivesse poupado, e a Hollande, a esta exibição mediático-comercial sem particular interesse político. Aqui é um "ele" a falar de uma "ela" mas podia ser ao contrário, um "ele" sobre outro "ele" ou uma "ela" sobre outra "ela". O essencial, para o caso - para qualquer caso - é o «conceito». E passo a citar, com os itálicos da tradução da Europa-América. «Ela amava-me enquanto conceito. Não como uma figura talvez, um corpo, um espírito, uma pessoa, nem sequer como parceiro. Enquanto conceito, um adjunto necessário à sua plenitude pessoal e humana (...) Não há factos. Há apenas duas pessoas. Não há factos numa coisa como esta. Em casamento nenhum. É o que a vida nos ensina. As relações são inteiramente subjectivas.» Percebeu o conceito, sra. Trierweiler?
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