15.6.13

Um programa

Confesso que, dois anos após a entrada em funções do actual Governo, não esperava uma manifestação de professores tão robusta. Também não esperava a dispersão da "mensagem" política do Governo - por exemplo, na feira da agricultura de Santarém, se o ministro dos negócios estrangeiros decidisse anunciar medidas na área da saúde ou da justiça, como fez ontem nas Necessidades em matéria de economia, ninguém notaria -, ou a emblemática frustração austeritária com epicentro na figura rigorosa e complexa que marcou indelevelmente esta primeira fase, o ministro das finanças. Com o qual, aliás, me solidarizei quando se arrependeu de não ter priorizado a reforma do Estado em vez dos impostos. Também não podia imaginar que se permitisse uma espécie de fronda, mais ou menos institucionalizada, em torno de uma categoria de trabalhadores, como os investidos em funções públicas e respectivos reformados, numa "frente" praticamente declarada única e adversária dessa batalha, muito mais do que qualquer empresa pública ou equiparada. E, sobretudo, não aprecio confundir essa batalha inglória com a "reforma" do Estado. Também teria sido bem recebido um "discurso", no sentido foucaultinano do termo, sobre a, e na, Europa em vez da trivialidade das reuniões "decisivas", sempre as derradeiras "decisivas" antes das próximas. Há, porém, avanços na frente financeira externa; alguma dessacralização inevitável do "programa de ajustamento" e da "troika"; uma atenção à concertação social que nem sempre se vê; um trabalho sério, desprovido de propaganda óbvia, na economia e na promoção verosímil do emprego numa contingência que não é apenas doméstica; na redução de encargos geracionais com rendas e ppp's; na dimimuição do número das empresas municipais e da dispersão autárquica; no "desinvestimento" nas indemnizações compensatórias na televisão e rádio públicas que obriga a empresa detentora da concessão do serviço público a mudar de vida para a preservar; na saúde, onde Paulo Macedo se revelou um estadista responsável capaz de um desempenho político noutra pasta onde possa aliar as suas valias em administração pública com o "mundo cá fora"; ou na administração interna onde a serenidade política tem frutificado. Não sou adepto de "agendas ideológicas" ou "mediáticas", nem de "primeiros, segundos e terceiros" na cotação infantil do mercado comentadeiro e do comadrio. Procuro ponderar factos e realidades. Sem se tentar perceber uns e outras, é difícil trabalhar. Não estigmatizar gratuitamente pessoas e instituições, providenciar a sua segurança, e não apenas a jurídica, promover, afinal, uma sociedade e uma democracia liberal, aberta, é o único programa que ajudei a escrever. Não desejo outro.

5 comentários:

Anónimo disse...

Muito bem....

isabel de deus disse...

Salazar aparece aqui como um santo, comparado com estas criaturas que tanto desprezam a função pública. O meu pai foi funcionário público e toda a família beneficiou da tranquilidade e prestígio que o seu cargo transportava consigo. Bem cedo teve acesso a uma vivenda de renda económica em Campolide, onde fomos felizes. Nada a ver com os guetos que hoje vergonhosamente proliferam por essa Europa fora. O bairro era interclassista e nele conviviam harmoniosamente contínuos e funcionários de topo. Ele considerava, e bem , que ser funcionário públco era servir a nação. DEepois vieram os boys e girls dos partidos a descaracterizar todo e qualquer sector a que o Estado teve acesso. Agora, é difícil separar o trigo do joio, até porque o joio está muito bem representado no poder decisório. E não, não sou salazarista, e sim, prezo a liberdade, mas haverá liberdade onde grassa a ignorância?

Alblopes disse...

O problema é que os funcionários públicos sempre tiveram regalias que os outros não conseguiram ter. Essa de ter sido atribuida uma vivenda a seu pai,é elucidativo das benesses que Salazar concedeu a uma classe que sempre foi previlegiada!E que agora sente que devia continuar a sê-lo! E para os apoiar lá está o TC e os sindicatos com toda a sua plêiade de actores "eternos" que já se confundem com os móveis das repartições. Que dizer duma Avoila e tantos outros!Ah!Já desapareceu o antigo representante dos QuadrosTécnicos e agora mostra-se uma senhora toda bem posta que até parece envergonhar-se de estar naquela posição!
Mas,não há dúvida:a vida mudou e só não vê quem não quer!A maior parte das tarefas exigidas quer à FP quer a outras profissões administrativas hoje podem ser facilmente executadas por "robots" e fica-se a ganhar em eficiência,espaço e rapidez!Veja-se o que se passou na banca:hoje quase ninguém ali vai levantar dinheiro. Porque será?
Só que os tais sindicatos continuam parados como há 50 anos!Ainda estão no tempo das amplas liberdades!E essas já nem na Rússia são admitidas!

isabel de deus disse...

Que coisa feia é a inveja! Demasiada gente ignora que esse sentimento baixo e vil tem estado na base de monstruosidades como o Nazismo ou o Estalinismo... Pois então, investigue-se os desmandos cometidos pelo Estado Novo ao ordenar a construção dos bairros que passo a enumerar: Encarnação, Caselas, Calçada dos Mestres, Restelo, Arco do Cego, entre outros focos de injustiça social que agora esqueço. Busque-se as derrapagens, os compadrios,os contratos leoninos, as construtoras amigalhaças, as "luvas" recebidas, os tremendos prejuízos para o Estado, quiçá a bancarrota (por que me lembrarei agora de coisas como a Parque Escolar?), o inconsciente é traiçoeiro...
Para explicar melhor o caso, as vivendas eram modestas mas dignas, prestando-se, a pouco e pouco, com maior ou menor esforço, à transformação em habitações muito confortáveis e, sobretudo, eram pagas. Lembro-me do meu pai levar décadas a pagar a renda e de só depois do 25 de Abril a casa se ter tornado propriedade plena, por estar em terreno camarário.
Quanto à substituição por robots, diz tudo acerca de uma visão de futuro, de uma visão do mundo. O meu pai fazia pesquisa e cartografia geológica; eu igualmente funcionária pública, sou professora e são igualmente "fps" os médicos, os enfermeiros, os polícias, os militares, enfim, tudo bafientos "mangas de alpaca". Não quero esquecer, no âmbito da minha profissão, os contínuos e vigilantes, que arriscam a pele quase tanto quanto polícias, ou as senhoras que, na secretaria, tanta vez terão vontade de atirar os ineficientes computadores pela janela e que são tão poucas para as encomendas...
Haverá quem sonhe com um admirável mundo novo com robocops, drones, aulas em plataforma moodle, talvez cirurgias em piloto automático. Claro que "one man's nightmare is another man's dream" e vice-versa...
Já agora, quanto a regalias, a existirem na função pública, não seria dever social da iniciativa privada, conferi-las também aos seus empregados? Houve quem o fizesse, há quem o faça, honra lhes seja feita. Pena é que alguns apostem num país cada vez mais terceiro-mundista, com a pauperização da classe média e um batalhão de miseráveis a votar em quem convenha.
E mais não escreverei sobre esta questão. Já passo o ano a ensinar e mereço férias...

Alblopes disse...

Com este post até concordo!