8.6.13

O passado neste presente


 


Até o tempo deixou de ser confiável. Dantes - e este "dantes" remonta apenas a uma meia dúzia de anos - havia primavera e outono, duas estações amenas que praticamente desapareceram. Agora oscila-se entre tempo de verão ou de inverno, dentro do que antigamente era primavera ou outono, e passa-se, sem dar por isso, entre ambos em meras horas e dias. Na feira do livro, por exemplo, escondi-me ontem à tarde de uma chuva pouco branda numa tenda dita de pequenos editores onde repousavam restos mortais de antigos grandes editores como a Guimarães. Por 4,9 euros, trouxe a primeira Agustina, prefaciada por Pascoaes, a novela Mundo Fechado. Anteriormente tinha ido por meia dúzia de alfarrabistas, na prática só o que me interessa ali. Mais dez cêntimos e sobreveio a correspondência Sena-Régio, publicada em 1986 pela INCM, e que esta dá, como a muitas obras suas, por esgotada. Quando, temo, as tenha para lá escondidas (ou destruídas ou por destruir) e que pertencem a um acervo bibliográfico notável de coisas nossas. Os preços actualmente praticados pela INCM, atenta a natureza da empresa, dra. Maria Luís Albuquerque, são pornográficos. É por estas e por outras que estas palavras de Eduardo Prado Coelho - que frequento com assiduidade - se aplicam perfeitamente à "estranheza" em vigor. «Sentimos que aquilo que para nós fazia sentido deixou de fazer sentido para os outros, e que as tentativas de manter um discurso lúcido, de prazer e inteligência das coisas e da vida, parece irremediavelmente condenado por um formato obrigatório que tudo tritura e tudo desrespeita. Descobrimos que o passado não é o que deixou de existir; existe, sim, senhor, bem perto de nós: porque nós somos hoje o passado neste presente em que não nos reconhecemos.»

2 comentários:

PSC disse...

Pena que os mais lúcidos já tenham ido e os muito poucos que ainda cá andam estão a ir cada vez mais depressa. Isto não seria um problema se tivessem aparecido substitutos do mesmo calibre e inteligência o que, infelizmente, não acontece.Faz-me lembrar o meu irmão que, quando falamos do "Passado neste Presente", me diz sempre: "Oh! Pedro esquece! Isto é outra gente! E a que nós conhecemos não volta mais. Infelizmente!"
Magnífico Post, Dr. João Gopnçalves.

Anónimo disse...

Subscrevo.