22.6.13

Recuperar a pulsão humanista






«Quando se lê muito, e eu fui feito pela leitura e não pelo estudo - porque nunca verdadeiramente estudei no sentido escolar do termo, e não "fazia os trabalhos de casa" -, aprende-se e forma-se. Aliás, este é o cerne da educação no sentido clássico, hoje tão esquecido, o de aprender para se fazer. O livro de Werner Jaeger sobre a paideia grega era então de leitura obrigatória para qualquer aprendiz de filosofia, e explicava bem essa parte "passiva", interior, aberta às influências e às seduções, quer do pathos, quer do ethos, quer do logos. Essa formação "passiva", a que nos faz, é, pela sua natureza, caótica, depende do "monstro", que alimentamos à força dos livros, e do modo como eles atingem a vida que se tem. Mas uma vez feita, fica lá para sempre. "Passiva", aqui nada tem de negativo, mas de silêncio interior perturbado apenas pelo som da nossa voz íntima falando connosco próprios. Freud sabia o que isso era, Proust também e, lá longe, na sua fantasmática Konigsberg, Kant procurava-a como alicerce para essa "razão prática" que fundamentava tudo. Depois, a uma dada altura, dá-se a volta, e a enorme presunção adâmica que os intelectuais têm fá-los escrever. Escrever, nos anos sessenta, por esta ordem: poemas, "teoria" e romances. Hoje, a ordem está alterada: os poemas estão lá, mas com menos peso, depois ficam as escritas fáceis (e quase sempre débeis) dos blogues e Facebook, e depois romances, romances, romances. Esta ordem das coisas é para mim um mistério, como é que uma pessoa de juízo normal pensa que os pode escrever com facilidade. Nem Agustina, que é uma grande escritora, foi capaz de construir personagens, como faziam Camilo e Eça, quanto mais gente que dificilmente vive para lá da Time Out. Hoje qualquer intelectual moderno, a começar por esses paradigmas da modernidade mediática que são os jornalistas, resolve escrever romances, para aumentar a ocupação de espaço em livrarias que parecem mostruários de uma espécie de papel pintado entre o lânguido e forte com personagens evanescentes na capa. Nesse contexto, eu prefiro o genuíno, as Sandálias de Prata, da Cristina Caras Lindas. (...) Nestes dias do lixo, o desprezo pelo "humano" concreto tornou-se a regra e, de uma ponta a outra do nosso mundo quotidiano, varreu-se a preocupação humanista não só da política como de muitos outros aspectos da nossa vida. A tecnologia é usada, numa sociedade cada vez mais pobre, para criar novas exclusões. Valores civilizacionais como a privacidade e a intimidade são dissolvidos na "facilidade" do Facebook. O universo público mediatizado gera uma cultura de superficialidade e ignorância presumida. Os valores não circulam numa sociedade que vive na moda e na novidade. Todas as mediações, dificilmente construídas pela luta cultural consciente dos homens para viverem sem ser na selva, estão em crise. E a política em democracia perdeu esse sentido de melhoria da vida dos homens comuns, da "felicidade terrestre", na única vida que conta para a democracia, que é a vida na Terra e não a eterna. A demagogia que sacrifica o presente em nome de um futuro construído ao sabor dos interesses desse mesmo presente reconstrói a ideia de que a salvação está outra vez num paraíso celeste, agora prefigurado nos "nossos filhos e nos nossos netos", em nome de quem a vida das pessoas que existem, tenham um dia ou cem anos, é desprezada. Eu sei que são velhas queixas, muitas vezes repetidas. Mas talvez tenha sentido repeti-las para renovar dia a dia, ano a ano, uma pulsão humanista que, se pode não fazer uma vida melhor, pode pelo menos fazer-nos melhores.»


 


José Pacheco Pereira, Público

2 comentários:

dúvida matódica disse...

O Estruturalismo é(era)um humanismo?

Justiniano disse...

Será o mesmo Pacheco que, em 2004, disse isto - "Sempre tive consciência de que o lastro que temos é muito pesado. Precisávamos de perder o excessivo garantismo do Estado. Temos uma sociedade que vive abafada por um Estado que é, ele próprio, em grande parte incompetente. Isto mata o dinamismo social. As pessoas podem estar irritadas com o poder, zangadas, mas verdadeiramente não desejam as peripécias da mudança, a mobilidade profissional, geográfica."