
«Desde o princípio, o maior erro deste Governo foi não ajustar contas com o passado, a pretexto de que não queria perder tempo com velhas querelas. Por assim dizer, apagou a responsabilidade de toda a gente que tinha levado Portugal à situação desesperada de 2011. O nosso coração é bom e muito inclinado a não tocar no sossego e no bom nome do próximo. É um coração de ouro que não gosta de afligir ninguém. E, como não gosta, os portugueses ficaram sem saber ao certo como se acumulou a enorme dívida, soberana e outra, que nos sufoca; quem deliberadamente a fez por sua própria força e autoridade; e que espécie de razões presidiram ao exercício (corrupção? oportunismo eleitoral? incompetência? puro desleixo?). A julgar pela televisão e pelos jornais parece que um castigo do Altíssimo se abateu sobre nós para nos punir de inconfessáveis pecados. Entretanto, cai interminavelmente do céu uma chuva de números, que de resto mudam dia a dia e em que o cidadão vulgar deixou de acreditar. Durante o glorioso mandato deste Governo, os portugueses, pelo menos, conseguiram aprimorar a sua educação cívica, que se resume numa frase: não devemos confiar em nada e contar com nada. Um ministro pode perfeitamente decidir isto ou aquilo e, em meia dúzia de horas, decidir exactamente o contrário. O primeiro-ministro ora nos garante a felicidade para depois de amanhã, ora um futuro de miséria para 30 anos. Os profetas-comentadores, deliciados de se exibirem e subitamente sem excepção com uma licenciatura em Economia, discutem o extravagante dr. Gaspar, ou a iminência do apocalipse, ou a urgentíssima necessidade do “crescimento”, que se tornou um fenómeno tão mítico como um unicórnio. E nós continuamos passivos no meio desta feira de inocentes, sem a menor ideia do que nos vai suceder. Mas sem queixas. Portugal é o país da impunidade.»
Vasco Pulido Valente, Público
2 comentários:
Certeiro. E assim se assiste ao espetáculo de um aventureiro político, descarado e quase inimputável como o inefável estudante (?) parisiense, perorar do alto da sua desvergonha sobre os atuais males da pátria. Que são de fato muitos, mas em grande parte propiciados por ele, condottieri de más sabenças como outros que por aí se pavoneiam. Ainda bem que me alijei de cá. Dentro de 4 dias vou para a bela Suíça e não conto voltar tão depressa. Prefiro a Riviera. Mas lamento os que têm de se azular aqui. Antipatriota? Não. Mas prefiro ser tudo isso a ser um apaniguado dum Soares, dum Sócrates, dum Lima ou dum Loureiro - tudo farinha do mesmo saco de gatos.
"não devemos confiar em nada e contar com nada". Ora aí está a razão pela qual ainda não decidi se adiro ou não à greve de professores. Detesto a ideia de alegrar Mário Nogueira ou Paulo Guinote, ambos professores primários (sei que já não se diz assim, mas apetece-me) irremediavelmente ligados a uma ideia de ensino e de professor nos antípodas da que defendo).Todavia, também detesto que um menino com idade para ser meu filho me tome por burra aconselhando-me a fazer greve "no dia 27". Já não haverá a noção de que algumas pessoas ainda têm (com esforço) alguns neurónios? Além do mais, não estou convencida de que a omissão do ajuste de contas tenha sido um erro. Parece-me antes algo de deliberado.
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