20.6.13

Salva-se a tábua

D. António – Por esta salvação de todos nós…
Que salvação é essa? Num naufrágio
salva-se a tábua a que se agarram náufragos?
Flutua longamente… porque é tábua.
E sou tão frágil eu, nesta aventura,
que só por ambição ainda flutuo…


 


O Indesejado, Jorge de Sena, 1945-1951


 


 


«Subitamente descobriu-se um país de famílias “angustiadas”, de estudantes “nervosos”, de “ansiedade” por todo o lado. Um exército de psicólogos e de psiquiatras deve mobilizar-se sempre que há exames, porque os frágeis estudantes (os mesmos frágeis estudantes a quem se pode perguntar o que é que eles fazem aos professores e entre si durante todo o ano) estavam todos deprimidos.»


 


José Pacheco Pereira, Sábado

3 comentários:

isabel de deus disse...

Parece que, nesta terra, só medidas drásticas como a questionável greve aos Exames Nacionais, conseguem, afinal, fazer pensar um pouco naquilo de que são feitas as escolas. E a resposta surpreenderá quem só parece valorizar teorias educativas que se vão sucedendo ao sabor das modas ou a parafernália de quadros interactivos e outros recursos informáticos. Surpreenderá quem canta loas a avaliações de professores mal desenhadas, a directores que lembram autarcas no seu pior, a números e mais números, pois há que pagar os tais quadros interactivos que nunca serviram para coisa nenhuma.
Pensa-se agora, finalmente, nas pessoas e, em primeiro lugar, nos alunos, porque são mais vulneráveis e porque o tempo foge e muito em breve serão eles a governar-nos.
Depois,nos adultos, cujo sofrimento impotente está na base da corrida à reforma que se registou nos últimos anos.
Dei comigo a pensar "I have a dream" e o sonho seria ter alguém como Pedro Santana Lopes à frente do Ministério da Educação. Ele, que foi capaz de mandar detectar, por toda a LIsboa, os velhinhos mais isolados e carentes, teria certamente coração para investigar o que se passa afinal com os nosso jovens, com os seus pais, com os seus professores. Jamais se apagará do meu espírito o rosto triste e assustado do Leandro, aquele menino que achou maior conforto nas águas frias e letais de um rio do que na escola que frequentava. Nem os rostos dos pais, gente dorida na sua impotência de pobres e pouco letrados. Este acontecimento simboliza para mim a escola que temos: um lugar onde frequentemente acontece que pessoas frágeis, alunos ou professores mais desvalidos, sejam violentados por marginais que, por um simples acto de matrícula, se tornam "estudantes", embora por regra não estudem nada.
O problema é humano, é uma questão de qualidade humana que , como sabemos, vai do santo ao criminoso. E, a meu ver, toda esta tragédia começou com a extinção "revolucionária" das escolas técnicas. Demasiadas escolas são agora viveiros de marginais, mas tudo se esconde porque há avaliações externas a temer e a imagem a passar para fora deve ser risonha.

Zephyrus disse...

Que falta que faz o serviço militar obrigatório para todos. A ver de passava a depressão aos pobres meninos. Os meus amigos do Chipre fazem dois anos de tropa. Só depois podem prosseguir os estudos. Que falta que isto faz por cá.

Alblopes disse...

Belíssimo post! Que dá para pensar!