27.6.13

"Não temo o juízo do futuro"


 


Estou a ler o livro de entrevistas de Jorge de Sena editado pela Guimarães, agora Babel, numa magnífica edição (embora com uma gralha aqui ou ali) preparada por Jorge Fazenda Lourenço. São trinta anos de entrevistas com destaque, talvez, para a de Abril de 1968, à revista O Tempo e o Modo que lhe dedicou um número inteiro. O que Sena afirma a propósito do chamado "meio literário" doméstico podia ser dito sobre a nossa pequenina vida pública em geral, capelista e corporativa (no sentido rasca do "corporativo", normalmente um ajuntamento de ressabiados estúpidos e anónimos), como se fosssemos todos iguais por baixo. Pois não somos, graças a Deus. Somos mais isto que o Sena descreve à distância higiénica da geografia e do nojo. «Tenho horror de falsas modéstias, de facto. Mas tenho ainda maior horror da mediocridade que se compraz em recusar-se a reconhecer o que a excede. Não, não sou um dos meus mais seguros admiradores. Se o fosse, seria como a maioria dos membros da vida [literária] portuguesa, tão satisfeitos de si mesmos [que escrevem sempre um livro pior que o anterior]. O problema não está em eu me considerar muito grande - mas sim em os outros serem, na maioria, tão pequenos. (...) O mais que fazem é louvar às vezes um medíocre ou desenterrar um morto, com medo da sombra que lhes seja feita. A diferença entre mim e eles é que não temo o juízo do futuro, e não procuro tapar o sol com uma peneira. Não: a minha segurança é total e absoluta: ninguém pode destruir-me senão eu mesmo.»

1 comentário:

PALAVROSSAVRVS REX disse...

Faço-me todos os dias à imagem deste Sena tão a-propósito citado por ti. Mesmo que não fizesse, sou assim.