Segundo as contas, amanhã cerca de 74 mil alunos apresentam-se a exames de português e de latim (imagino que em latim sejam umas vagas dezenas, se tanto: se eles não dominam uma língua viva, que saberão fazer com uma morta?). Simultaneamente está marcada uma greve de professores à vigilância dos ditos exames. O ministério da educação convocou o dobro de professores, por comparação com os examinandos, para assegurar que as provas se realizam. Por outro lado, associações de pais, psicólogos e mais meia dúzia de curiosos envolvidos no "estudo" das profundezas do ser humano, em especial, e da família, em geral, emergem de cinco em cinco minutos para sugerir "abismos", "nervosos miudinhos" e uma parafernália de "ansiedades" que a eventual não realização dos exames podem provocar na rapaziada e, sobretudo, na família da rapaziada. Foi mesmo dito por um jornal que as referidas 74 mil almas e respectivas famílias terão mobiizado os bons ofícios do PR, de metade do Governo e de um sindicalista recentemente retirado das lides. Não discuto a oportunidade da greve que é nenhuma. Mas, desde que as greves foram inventadas, não consta que alguma vez tivessem sido oportunas. Por exemplo, no âmbito dos transportes públicos, há uma greve quase dia sim dia não - que chateiam seguramente bem mais do que 74 mil pessoas, já contando com a parentela. E não me recordo de ver tanta gente preocupada ou "ansiosa" com o exercício. Ou com as "listas" que os organismos públicos têm de elaborar até meados de Julho relativas aos trabalhadores a "requalificar". Num país de mentes perversamente pequeninas e vingativas, essas "listas" devem ser escrutinadas com a maior atenção e os critérios estabelecidos com rigor, isenção e clareza. É que os exames politicamente comparados com isto são peanuts. Ou é preciso meter explicador?

4 comentários:
As suas palavras são das raras que ainda leio com respeito e sem a náusea que me vem causando este país de onde só o exílio interno é a salvação, sendo impossível o externo.
Meu caro, o azedo dos profs já vinha de longe e explodiu pelos picanços da Lurdes Umbrige ", e estão muito para lá da questão estritamente laboral.
Já, por várias vezes, referi este facto e dei exemplos.
Já agora, e se estão tão preocupados com exames não feitos por uma greve, pergunto se se já preocuparem em fazer exames ás criancinhas que frequentam as universidades de verão dos vários partidos? Podem começar pelos da 4ª Classe.....
Podia ser que dessem melhores ministros ...
Resolvido o meu dilema quanto à greve, por força de um acidente doméstico que me deixou temporariamente incapacitada, observo os meus colegas, os poderes instituídos (sindicais e governamentais) e penso que nós, professores, somos, como os americanos dizem ser, "slow to anger", mas quando gravemente agredidos, talvez temíveis. Teremos tido grande peso na perda da maioria absoluta pelo Governo anterior. É insuportável para um professor que se preza ser governado por um cábula, um "esperto", como então acontecia. Hoje, citando Pessoa "tudo é nevoeiro", mas cada vez mais se torna claro que a tutela não se recomenda. Falta ali o "humano, muito humano" que justamente se aplica a Pedro Santana Lopes. Falta empatia, embora tenha havido simpatia(sincera?). Falta conhecimento do terreno, dos intervenientes que contam e que estão cada vez mais perdidos e infelizes: alunos e professores.
À sua pergunta no título, a reposta parece como óbvia: pelos visto é.
Permita-me que lhe indique desde já um inegrume, ao tamanho e medida da sua mesquinhez, e que porventura sacie a imensa sede narcísea que o define.
Já lhe disse, volto a referi-lo: dedique-se ao que (julga) sabe(r), à Ópera, a Sena, a muito pouco de Proust e Pessoa e às transcrições directas de Pulido Valente e Carrilho.
E os meus parabéns pelo seu precioso auxílio à "nossa" causa governativa que, verdade seja dita, tem sido fundamental - tal qual à imagem de si.
Considere este abraço fraterno para a névoa tão insignificante, e tão sedenta de ser que afinal e no final, é.
Enviar um comentário