
Não passaria pela cabeça de ninguém convidar uma amálgama de criaturas - entre as quais se poderão encontrar, talvez, escritores (e chamar a todos "escritores" diz bem do estado da arte do que passa por literatura portuguesa há já algum tempo) - para se dedicarem a "inventar" uma espécie de prolongamento livre de Os Maias, de Eça. Mas o facto é que passou pela cabeça de alguém no hebdomadário Expresso que, como toda a gente sabe, determina o "cânone" em matéria de funcionamento geral da nação nas suas mais distintas manifestações. Não há todavia hipálage de Eça para definir isto sem ofender ninguém, sobretudo a ilustre memória do velho "vencido da vida". É uma espécie de "construções na areia", agora que chegou o Verão, em versão supostamente mais sofisticada. E, nalguns casos, de uma alarve sofisticação. Por outro lado, e depois de muito porfiar a "comissão" destinada a "reformar" o IRC, eis que é um amável comentador de televisão, o meu estimado dr. Marques Mendes, quem afinal faz de "relator" da dita comissão antes de esta, segundo ele, entregar as conclusões a quem as pediu. Finalmente, o Presidente da República vai chamar a Belém trinta luminárias da economia nacional para, uma vez mais, discutirem o "futuro". Conviria aqui lembrar que, da academia à padaria, passando pelas instituições, pelas televisões e pelos jornais, nunca o país teve tantos "economistas" e que nunca o país, nos derradeiros anos, foi tão puxado famosamente para baixo. Isto quer dizer que a circunstância de estarmos atafulhados em "economia" de manhã à noite não provou fazer-nos muito bem. Talvez o PR lucrasse mais em ouvir outro género de cientistas sociais e, sobretudo, alguém que lhe sussurrasse para que serve a política, em democracia, em tempos como estes. Não falta, do presente, passado e futuro do regime, quem pudesse fazer isso (até podiam aparecer um ou dois economistas, não mais) sem a língua de pau do "economês" e do "financês" que parece que veio para ficar. Em suma, como dizia um personagem de Os Maias, "falhámos a vida". Mas neste país das maravilhas não sabemos, pelos vistos, falhar outra coisa.
4 comentários:
Não será antes o "falhámos a vida, menino!", de Ega para Carlos? Naquelas páginas finais, de elegia magistral, percorrendo o Ramalhete.
Costa
Com as ideias luminosas que o caracterizam e o bom gosto que o exorna, o semanário de "reverência" do insigne dr. Balsemão decidiu avacalhar o Eça . Espera-se que o bródio obedeça ao novo acordo brasileiro e este possa servir de desculpa para algumas fífias das genialidades que se aprestam a cometer a farsa.
Saricoté,novos e velhos.
CARLOS VARGAS - Um breve salto a banhos, longe dos deuses, e a ausência da dádiva divina do sinal de rede impediram-me de ler e saudar em devido tempo o magnífico post que João Gonçalves intitulou "O País das Maravilhas", em homenagem à saudosa coluna de Vasco Pulido Valente no EXPRESSO. Autor que aliás assina na timeline do Portugal dos Pequeninos a não menos magnífica crónica a que chamou "Os Velhos", no PÚBLICO.
Tenho verdadeira pena que o enorme talento cronista do João Gonçalves fique confinado ao seu blogue e por vezes se perca no vórtice imenso da blogosfera . Que me perdoem os leitores e admiradores do João Gonçalves, que neste espaço com ele convivem. Mas era bom que este autor fosse ainda mais lido - e reconhecido - no género literário de grande tradição portuguesa - no qual é mestre. Senhores editores e directores de jornais: toca a reparar na qualidade ímpar dos escritos do João. Dou-vos uma dica: talvez seja este o momento de dispensarem os rascunhos insossos e sombrios que muitos dos vossos jornais e revistas esforçadamente publicam. Talvez seja a hora de brindarem os vossos leitores com a companhia informada, culta e inteligente do João Gonçalves. Sugeria-vos a troca. Só vos ficará bem. Os vossos leitores irão agradecer-vos. E eu ficar-vos-ei, também, eternamente grato.
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