
A política, sobretudo a política enquanto história, precisa de símbolos e de gestos (até mesmo de alguns aparentemente gratuitos) para sobreviver com dignidade. Dias como o de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas devia ser um desses dias. O actual regime já vai no seu trigésimo nono 10 de Junho. Com o decurso do tempo, Camões foi ficando para trás - nos primeiro anos, com Eanes, não era assim -, as Comunidades dispersas pelo mundo mais entregues à retórica de ocasião e a si próprias como, aliás, sempre estiveram fossem elas produto do exílio político ou económico (este agora de novo a aumentar em virtude das circunstâncias), pelo que resta Portugal. Ou o que resta de Portugal para ser mais preciso. Fazia sentido ter a presidente do Brasil presente nas cerimónias oficiais de um 10 de Junho que também é dela? Fazia mas porventura a gravitas acrítica do protocolo não o permitiu embora Dilma não olvidasse, ao contrário de nós, a importância da simbologia política independentemente dos "negócios". Antes do Portugal oficial, oficioso e envergonhado de Elvas, recebeu Seguro e Mário Soares. Camões dirige-se, pois, embaraçado aos nossos contemporâneos (sempre os mesmos) pela voz de Jorge de Sena, dois símbolos maiores dessa vida tão profunda quanto tragicamente "pelo mundo em pedaços repartida".
Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
Que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
Para passar por meu. E para os outros ladrões,
Iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
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