
«Os jovens merecem uma vida, mas parece que os velhos não merecem nada. O dr. João Salgueiro sugeriu outro dia que os reformados fizessem um sindicato deles. Não percebeu, como é óbvio, a manifesta impossibilidade do exercício. A primeira praga dos velhos é o isolamento. Sem amigos, nem camaradas, porque uns morreram, ou estão doentes no hospital ou em casa, ou vivem numa miséria tão profunda que ficaram sem forças para resistir. De resto, os poucos privilegiados, a quem sobra um vestígio de energia e de indignação, perderam o lugar por excelência para se encontrarem e se organizarem: o lugar do trabalho. Aos vários governos, que nos trouxeram à presente desgraça, não escapou esta impotência essencial. E a troika, que teme distúrbios, concorda alegremente com a receita. Se um belo ano morrermos todos simultaneamente, haverá uma grande festa nas Finanças. Entretanto, se a pensão não chegar ou diminuir para além do tolerável, os velhos, tirando uma pequeníssima minoria, não conseguem, como os jovens, encontrar trabalho. Mesmo fortes, mesmo lúcidos, mesmo competentes e, às vezes, competentíssimos, ninguém os quer. Pior do que isso: no bom tempo, os velhos mereciam o respeito da generalidade da populaça. Agora, não. A deferência e a delicadeza com que eram tratados desapareceram e, no lugar delas, apareceu uma arrogância e um desprezo, uma espécie de ironia perversa que os põe firmemente à margem como se eles não tivessem também o direito de viver.»
Vasco Pulido Valente, Público
1 comentário:
Ninguém diria melhor! Com muita vida gasta e em plena reforma corro de um lado para o outro no apoio aos meus filhos e netos ... Que os energúmenos, quaisquer que sejam, não ousem dizer que eu já não tenho serventia.
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