13.3.13

O dever do cepticismo

Tenho andado a ler esta biografia de Soares a qual, por vezes, me arranca enormes sorrisos. Ainda vou por alturas das eleições para a constituinte, em Abril de 1975, e Joaquim Vieira, pelo recurso a depoimentos certeiros, de facto reconstitui um percurso notável tanto pela persistência quanto, sobretudo, pela contingência. Ficamos a saber que se dormia a sono solto nos longos conselhos de ministros do "gonçalvismo" (Vasco Gonçalves, pelos vistos, não abdicava da sua sesta e prolongava a coisa até madrugada sem que antes não dormisse mais um bocadinho), que Soares foi "identificado" por seguranças privados da facção esquerdista do PS antes de poder entrar no congresso de 74 na Aula Magna («Vão bardamerda mais a identificação, seus cabrões. Identifiquem-se vocês. Não os conheço de lado nenhum») ou que Medeiros Ferreira, ainda na "tropa", foi convidado para ministro da educação depois da saída abrupta de Magalhães Godinho e recusou. Medeiros, aliás, foi dos poucos que ao longo destes anos todos conseguiu sempre bilateralizar as conversas com Soares ("conversa bilateral" é o termo usado por Medeiros para classificar a primeira aproximação do futuro secretário-geral do PS). Isto tudo para chegar a Mário Mesquita, outra das "fontes" do livro, um compagnon de route de Soares que nunca prescindiu, como Medeiros, da sua liberdade crítica. Foi um título dele, de 1978, salvo erro, quando era director do Diário de Notícias, que resumiu as tormentas de Soares primeiro-ministro perante um pujante presidente Eanes que o removeu: "Deus não dorme". Soares também não e Mesquita acabaria por deixar a direcção do jornal porque, famosamente, as coisas em geral começam e acabam no umbigo mimado de Soares como esta biografia bem atesta. Por isso não estranho que Mesquita intitule o seu mais recente livro como O Estranho Dever do Cepticismo (Tinta da China, 2013). Escreve, a propósito, Medeiros Ferreira que Mesquita «viu-se envolvido desde cedo no compromisso com a luta tenazmente filosófica pela liberdade dos outros e de si próprio num país velhacamente descrente de tudo que o faça progredir.» Nesta matéria, de facto, não avançámos por aí além. Mas o que avançámos a esta geração de cépticos alguma coisa devemos.

Sem comentários: