
Só esta madugada vi Argo, de Ben Affleck. Parece que ganhou, este, uns quantos óscares. Mais do que a peripécia - o repatriamento bem sucedido, executado no fio da navalha, de meia dúzia de diplomatas norte-americanos no auge da revolução iraniana de 1979 - interessou-me a personagem desempenhada por Affleck, o "especialista" nessa manobra que, famosamente, está sozinho no "terreno", entalado entre a missão oficial à última hora abortada "por cima" e a determinação moral (e, no caso, a coragem física) em a levar até ao fim. Nem sempre é possível reagir com sucesso à impotência ou às dificuldades causadas pela pusilanimidade alheia. Quanto tempo inútil se perde, tantas vezes, a tentar explicar "por a mais b" que, por este ou aquele caminho, esta ou aquela omissão se está a levar tudo tão alegre quanto inconscientemente para o fundo? Ou que, ao chamar a atenção para disparates clamorosos se procura fazer elevar a voz crítica, sempre incómoda, claro, mas porventura mais sensata que a da superficialidade manobrista e da facilidade desastrosa? Ou, ainda, que é preciso denunciar o obtuso que parece o óbvio ou não tergiversar perante o óbvio que é mesmo obtuso? Foi ao não ter hesitado em responder a questões como estas, na solidão do quarto de hotel em Teerão, que a personagem de Affleck pôde ajudar aqueles pobres diplomatas norte-americanos a tremelicar de medo. No limite, eles souberam segui-lo.
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