5.3.13

A Morte vital



De repente, entre tagarelas e bola, bola e tagarelas, dou pelo canal TCM onde passa Morte em Veneza, de Visconti. Por muito que o tempo passe pelo filme, há um tempo que não sai do filme. Existe uma espécie de eternidade vital naquela Morte, uma eternidade que, aliada à prosa de Thomas Mann, é porventura incompreensível ao "som" da chamada "modernidade". Visconti, porém, não precisa dos "modernos" para nada porque, famosamente, nunca foi outra coisa no seu realismo excessivo, no seu classicismo exigente, no seu traço tão italiano quanto cosmopolita nos filmes ou na ópera. Tinha mundo e era do mundo. Morte em Veneza confronta a inevitabilidade da decadência física com o escândalo da juventude e da beleza. Tadzio representa uma certa ideia do belo infinito e intangível. Noutro registo, e anos depois da novela de Mann, Genet escreveria sobre a impossibilidade de "tocar" a beleza ("ne permettez pas que je vous touche car on ne doit pas toucher la beauté") associando essa impossibilidade, também, à morte. Visconti, na tela, foi o percursor definitivo dessa impossibilidade. Ninguém fez melhor.

4 comentários:

C Vidal disse...

Inqualificável post. Uma forma de gozar com uma outra morte neste mesmo dia. O título do post confirma isto mesmo. Visconti não pode ser apropriado para isto.

João Gonçalves disse...

Comentário lamentavelmente estúpido.

Carlos Vargas disse...

O TOQUE DA BELEZA

Uma das minhas múltiplas mudanças de casa coincidiu funestamente com o extravio do DVD da Morte em Veneza. Não sei porquê nunca o repus. Talvez pelo pudor do toque da beleza. Talvez pelo pudor do consumo excessivo do belo, tantas e tantas vezes a minha mente regressa incessantemente a Veneza e à obra-prima de Visconti . Imagino sempre que a reencontrarei num desespero nocturno de homo zapiens . Entretanto, vingo-me obsessivamente na Sinfonia n. 5 em Dó Sustenido Menor, de Mahler . Tenho a absoluta certeza de que o adagietto que seduziu Visconti nasceu ali, naquela praia veneziana, ao sabor do vento e da salsugem, na companhia da bela Alma. Não, como quer a História, no casebre de Maiernigg . Nem sequer, numa ruela sombria da Boémia, a tresandar a cadáveres e cerveja.

Marques disse...

1912 foi certamente um ano extraordinário,pois foi o da publicação da "Morte em Veneza" do Thomas Mann,e o da composição da primeira Elegia de Duino,do Rilke. E é extraordinário,porque em ambas as obras,que sem dificuldade coloco nos primeiros degraus da Literatura,se trata do encontro entre a Beleza e a Morte. Do Mann já falou,e bem, o autor do blogue. Do Rilke,gostaria de transcrever no original todo o inicio da Elegia,mas não o vou fazer para não ser acusado de snob,elitista,e não sei que mais,por quem não entende que as traduções,sobretudo as de poesia,são sempre imperfeitas,pelo menos mutiladas da sonoridade da lingua mãe. Por isso cito só um fragmento,e a respectiva possivel tradução:
Denn das Schöne ist nichts als des Schrecklichen Anfang,
Pois o Belo não é senão o princípio do Terrível,
Claro que toda a Elegia mereceria ser citada,desde o verso inicial,"Quem,se eu gritar,me ouviria na hierarquia dos Anjos?" mas fiquemos por aqui. Mann e Rike,dois gigantes ao pé dos quais pouco somos,e poucos semelhantes,se alguns,vemos.