16.3.13

A nossa dimensão


 


Passam vinte anos sobre a morte de Natália Correia. A poesia de Natália é desequilibrada na sua qualidade e há demasiada prolixidade nos seus escritos. O Fernando Dacosta acha que era tocada pelo "mistério", um respeitável disparate, mas sempre preferi o seu lado bem terreno que misturava, nem sempre nas doses adequadas, com um certo romantismo político e cultural  traduzido na veemência das suas posições públicas, mesmo as aparentemente mais contraditórias. Natália pertencia a uma "escola" de polemismo que desapareceu por completo. Agora, uma "polémica", ou uma crítica, é tomada por coisa pessoal e as pessoas afastam-se estupidamente umas das outras em nome de uma "honra" que nem sequer dá para ser perdida. Pessoas como ela fazem falta nas horas anódinas que vivemos onde "a nossa dimensão/ Não é a vida. Nem é a morte."


 



Dão-nos um lírio e um canivete

E uma alma para ir à escola

E um letreiro que promete

Raízes, hastes e corola.


Dão-nos um mapa imaginário

Que tem a forma duma cidade

Mais um relógio e um calendário

Onde não vem a nossa idade.


Dão-nos a honra de manequim

Para dar corda à nossa ausência.

Dão-nos o prémio de ser assim

Sem pecado e sem inocência.


Dão-nos um barco e um chapéu

Para tirarmos o retrato.

Dão-nos bilhetes para o céu

Levado à cena num teatro.


Penteiam-nos os crânios ermos

Com as cabeleiras dos avós

Para jamais nos parecermos

Connosco quando estamos sós.


Dão-nos um bolo que é a história

Da nossa história sem enredo

E não nos soa na memória

Outra palavra para o medo.


Temos fantasmas tão educados

Que adormecemos no seu ombro

Sonos vazios, despovoados

De personagens do assombro.


Dão-nos a capa do evangelho

E um pacote de tabaco.

Dão-nos um pente e um espelho

Para pentearmos um macaco.


Dão-nos um cravo preso à cabeça

E uma cabeça presa à cintura

Para que o corpo não pareça

A forma da alma que o procura.


Dão-nos um esquife feito de ferro

Com embutidos de diamante

Para organizar já o enterro

Do nosso corpo mais adiante.


Dão-nos um nome e um jornal,

Um avião e um violino.

Mas não nos dão o animal

Que espeta os cornos no destino.


Dão-nos marujos de papelão

Com carimbo no passaporte.

Por isso a nossa dimensão

Não é a vida. Nem é a morte.

3 comentários:

domedioorienteeafins.blogspot.com disse...

De facto, as pessoas afastam-se estupidamente umas das outras. Tenho algumas razões de queixa.

Fernando Martins disse...

Boa escolha de poema (embora no original esteja numa espécie de quadras de 8 sílabas métricas) - podia tê-lo ilustrado com a música de José Mário Branco...

José Fragoso Santos disse...

essa música não faz justiça ao poema. é uma música mansa (como a tia do louçã), monocromática, chata. já a natália correia não era nada disso; era muito mais o seu contrário: frenética, imprevisível, múltipla.

o João Gonçalves podia ter a gentileza de partilhar com quem o lê a entrevista de 1986 para o Semanário. tenho a certeza de que não seria só eu a ficar-lhe agradecido.