24.3.13

"Nós seremos os últimos"






O TNSJ, do Porto, recorda Fernanda Alves e Ernesto Sampaio, talvez das poucas histórias efectivas de amor que não me enxofram. Fernanda estava no Porto, no início de 2000, para uma peça e morreu, sozinha, no quarto do hotel onde estava hospedada. Ernesto, em Lisboa, aguentou pouco mais que um ano sem ela. Foi, diria Cesariny, a única pessoa que viu morrer de amor. «A tua ausência é como essas árvores perdidas num jardim ao abandono, que parecem transplantadas de uma floresta antiga, quando um perfume de infância habita a sua madeira. De mim não resta grande coisa. Não me chores. Aqui já não há fogo para apagar. Não me olhes (sei que não podes olhar-me). Estou quase a cair. Já não sinto o meu eu, o meu peso. Perco o equilíbrio, flutuo. Eras tu a gravitação da terra e do céu, e anulaste-as (...) Os últimos, nós seremos os últimos estendidos de uma grande família ignorada que atravessou os séculos dos séculos em termiteiras a perder de vista destruídas e reconstruídas, abatidas quando faz mau tempo, ensolaradas, dissolvidas em chuva, pisadas pelas multidões, sacudidas por abalos, revoltas, incêndios, contágios, milagres obscuros, futilidades ruidosas, feridas de sangue e de água, tiros. Por cima disto nada, ninguém soube nada, ninguém saberá nada.» Os dias felizes não voltam mais.

1 comentário:

Isabel de Deus disse...

Há uma frase no filme de Truffaut "La Femme d'à Coté" que me fascina:"il n'y a pas de mauvaises chansons d'amour". Esta extraordinária prosa poética só poderia ter nascido DO grande amor. Abençoados são os que o vivem,mesmo quando dele morrem.