Francisco José Viegas deixa hoje a secretaria de Estado da Cultura pelas piores razões como são sempre as de saúde. É substituído por alguém que está familiarizado com as coisas, quer por formação, quer por experiência política própria: foi vereador, com o pelouro da cultura e da juventude, de Isaltino Morais em Oeiras e, mais recentemente, o extraordinário Pinto Ribeiro nomeou-o para a Direcção-Geral das Artes de onde saiu incompatibilizado com a não menos extraordinária sucessora de Pinto Ribeiro, Gabriela Canavilhas. Já aqui escrevi que, sensivelmente desde Julho de 2000, o então ministério da Cultura era, para usar uma expressão de Marcel Proust, um cadáver que ainda não tinha entrado em funções. Apenas Amaral Lopes, secretário de Estado entre 2002 e 2005 (e digo-o com a tranquilidade de quem foi nomeado por ele para um cargo dirigente num organismo do ministério e que de lá se demitiu ligeiramente aborrecido com ele), "salvou" mitigadamente a honra do convento. Os três ministros de Sócrates inexistiram e o actual Governo, ao declinar o ministério em secretaria de Estado, limitou-se a deixar a realidade seguir o seu curso normal. As pessoas interessam pouco nesta "história" nada edificante. Quanto à cultura propriamente dita, importa salientar que, na Europa, de acordo com a chamada Agenda Europeia para a Cultura num Mundo Globalizado, da Comissão, o sector cultural é encarado como «um importante propulsor de actividades económicas e de emprego que ajuda a promover uma sociedade inclusiva e que contribui para a prevenção da pobreza e da exclusão social.» Ora este aspecto é particularmente relevante no actual momento de crise que não é apenas económica, financeira e social, mas também de valores e de opções individuais e colectivas. Vários estudos internacionais têm destacado o contributo que a cultura e a inovação evidenciam no PIB, no reforço das políticas de emprego e de qualificação e na coesão nacional. Oxalá, um dia, possamos absorver estas evidências com a mesma facilidade com que outras nos entram tão massiva quanto ligeiramente pelos olhos dentro.
4 comentários:
Desde 1980 que vários foram os "ocupantes" da pasta da Cultura (fosse ela Ministério ou Secretaria de Estado).
No pódio encontramos Vasco Pulido Valente, Teresa Patrício Gouveia e Manuel Maria Carrilho. Como piores desempenhos temos Isabel Pires de Lima, José António Ribeiro, Gabriela Canavilhas, Elísio Sumavielle, Amaral Lopes e Francisco José Viegas.
Os outros andam a meio da tabela. É impressionante a sua falta de rigor na análise do desempenho dos titulares da pasta!
meta a cultura no cu seu cabrão da merda caralho foda-se
Totalmente de acordo com a valia da cultura. Mas o problema, como o senhor mesmo tem descrito várias vezes, é que no nosso país há muito "gato por lebre" na área cultural.
Outro dos problemas é que o sector cultural alberga puros mercenários - no mau sentido do termo - que "pululam" no sector como poderiam pulular noutro qualquer. Já aqui falou na OPART e da gestão que do São Carlos, e incluiria também as famosas "redes culturais" em que se chega ao ridículo de termos "directores artísticos barra gestores culturais" que vêm chorar para a praça pública enquanto se aumentam os próprios ordenados.
Se muitas instituições tivessem sido bem geridas não estariam na situação actual. Claro que não nego o desinvestimento dos últimos governos - é demasiado tangível para que se possa negá-lo - mas há que procurar responsabilidades nos próprios agentes culturais.
Off-topic: é abjecto o tom de muitos comentários no "Público" à notícia da saída de Francisco José Viegas por motivos de saúde. Impressiona-me também que aceitem a publicação de comentários desse tipo.
Caro sr. João Gonçalves:
A "cultura", subsidiada e seleccionada pelo Estado, resume-se a duas coisas: compadrio e propaganda.
A citação da "Agenda Europeia" fala da propaganda. Parece que a citação de Platão pela Sontag pouco lhe aproveitou.
Enviar um comentário