25.10.12

Pensar a Europa






«Vamos mesmo ter de mudar de hábitos. E o mais urgente é mudar de hábitos mentais e de ideias, que são o que hoje mais nos condiciona e bloqueia. E estes hábitos, como todos os hábitos, só mudam pela pressão incontornável das circunstâncias, quando elas impõem verdadeiras rupturas. É nestas situações que a lucidez política e a audácia intelectual, se bem combinadas, ajudam muito. Com sorte, elas conseguem mesmo conduzir rupturas evitando colapsos, encontrando às vezes saídas inesperadas. É por aqui que é preciso seguir. Infelizmente, foi justamente o contrário disto que aconteceu no Conselho Europeu da semana passada, que retomou o carrossel de cimeiras de conversa fiada em que temos vivido, fixando um retrato dos dirigentes europeus que é cada vez mais deprimente. Todos muito contentes com o Nobel da Paz, enquanto o Erasmus, o programa criado que se tornou o maior símbolo do espírito europeu, corre o risco de acabar por falta de financiamento. E a união bancária lá voltou para as calendas... Isto deve-se - não tanto como se tem dito - ao domínio alemão, mas sobretudo à incapacidade geral para lidar com ele: incapacidade sobretudo estratégica e sobretudo francesa. Apesar das promessas e dos esforços de François Hollande, o balanço da mudança é, convenhamos, decepcionante: a França acabou por adoptar o tratado orçamental sem as alterações tão reclamadas, o imperativo de crescimento caiu numa adenda subalternizada, as demais sugestões do Presidente francês foram mais ou menos delicadamente ignoradas. Se o seu programa era o que ele enunciou na entrevista conjunta que deu a vários órgãos de informação na véspera deste Conselho Europeu - nomeadamente o de se resolverem prioritariamente as situações mais explosivas da Zona Euro, e o de se assumir uma Europa a duas velocidades -, é difícil tirar outra conclusão que não seja a do seu malogro. O que este Conselho Europeu claramente mostrou foi que Angela Merkel domina a economia, a estratégia e o calendário. E tudo, agora, com um único objectivo: o da sua reeleição no outono do próximo ano. Até lá, só são de esperar manobras de diversão, matéria em que a chanceler alemã se tem revelado de um surpreendente talento, multiplicando ideias, propostas e sugestões tão vagas como contraditórias, que desorientam toda a gente e lhe garantem o controlo final dos acontecimentos. Nesta fase da crise, o interesse europeu impõe, contudo, uma outra agenda pública e política, que - tendo já em vista as eleições europeias de 2014 - deve passar por três pontos que é preciso abordar e discutir sem tabus: o federalismo, o crescimento e o proteccionismo. Trata-se de três pontos que se transformaram em dogmas do não-pensamento contemporâneo, apesar de estas palavras serem das mais tagareladas pelo ruminante comentarismo dos nossos dias. São palavras que se enunciam mais ou menos supersticiosamente, como se a sua mera invocação tivesse um efeito mágico (positivo ou negativo) na realidade, ou melhor, na nossa percepção da realidade. E o problema é que têm mesmo: esse efeito é o de manter tudo tal e qual, o que, paradoxalmente, parece ser exactamente o que ninguém quer que aconteça. Quanto ao federalismo, é preciso dizer o que é e o que se quer. O que, na verdade, ninguém faz hoje em dia. Porque é muito diferente pensar o federalismo à alemã, ou à francesa: no primeiro caso, o que se visa é adoptar um controlo orçamental centralizado, normas de despesa pública e de défice e um sistema de sanções para os incumpridores. No segundo caso, o que se pretende é estabelecer normas de solidariedade a todos os níveis, mutualizando as dívidas e organizando um sistema de transferências de rendimentos entre os países da mesma união monetária, no caso, da Zona Euro. Quanto ao crescimento, é preciso explicar por que razões - e elas são de facto muitas e bem diversificadas - é que ele tem diminuído quase até ao desaparecimento (agora, até na Alemanha...), resistindo tenazmente por todo o lado às mais diversas estratégias que têm sido seguidas para o estimular. Com sinais que já vêm, hoje, dos próprios países emergentes. Quanto ao proteccionismo, é preciso olhar a realidade, não só do " comércio injusto" que é imposto pela China, pela Índia, pelo Brasil, mas também olhar para o que Obama tem feito com a sua campanha made in USA, e para o que François Hollande começa a fazer com o seu ministro Arnaud Montebourg, ao lançar uma fortíssima campanha de "compre francês", reivindicando zonas específicas dos supermercados para o efeito, tudo isto a evidenciar os paradoxos e as perversidades do fanatismo livre-cambista. É, pois, altura de abanar estes dogmas se queremos realmente mudar de vida, defendendo as formas e o potencial da civilização que, em toda a história, mais valor deu à autonomia individual e ao bem-estar colectivo, num quadro inédito de exercício da liberdade.»




M.M.Carrilho, Diário de Notícias

5 comentários:

Anónimo disse...

Carrilho manteve uma tal distância ao partido, que foi capaz de ficar e manter-se de fora do processo interno de estupidificação a que poderia ter sido conduzido pela natureza das coisas. Só por isso, já merece referência.

A disse...

Você é um pedante João Gonçalves

A disse...

Eu tenho-lhe um ódio profundo JG . Você representa tudo o que é detestável nessa cambada de intelectuais bem falantes e inoperantes que são vocês todos caralho

Vasco disse...

Alguém na lá "Europa" lê os textos de Carrilho? Gostava de saber. São bem alinhadinhos, dão as pistas necessárias e tal... mas se depois os governos continuam a portar-se como autonomias rebeldes para que serve esta conversa de chacha?

cristina neves disse...

Muito bom João. Concordo inteiramente contigo, na minha opinião são pessoas excessivamente tecnocratas que nos têm governado e governam, sem vivência e sem interesse, diria mesmo algum desprezo, por quem gostaria muito e trabalha todos os dias, no âmbito dos seus espaços, por manter de alguma forma acessa a chama da cultura.