19.10.12

O abastardamento da língua


 


«O teatro para que se vem já não é o teatro que se fazia. Os modelos de teatro brasileiro do meu tempo, com as grandes companhias, da Cacilda Becker, Tonia Carrera e Paulo Autran, eram exemplares. Faziam-no com uma verve fantástica e com um sentido de escola muito europeu. Não só na interpretação dos textos como no seu débito. Ainda é o caso da Fernanda Montenegro, da Eva Wilma, que fez comigo a “Madame” com a Eunice Muñoz. Não temos a noção do quanto o português do Brasil se abastardou com as novelas, dominadas pelo chamado carioquês. Numa novela portuguesa ouve-se uma frase e é impressionante a quantidade de palavras mal ditas, mal entendidas no seu sentido, sem sentido de plasticidade da língua. Isto é fatal.»


 


Ricardo Pais


 


Foto: Rodrigo Cabrita

1 comentário:

isabel de deus disse...

Fatal mesmo! E depois vá lá um professor de língua materna convencer os jovens de que é errado aquilo que se vem tornando usual...Ricardo Pais é um Senhor e grande defensor da nossa língua. Tenho um recorte de jornal, de há um ano ou dois com uma notável argumentação sua contra o famigerado "Acordo". Ninguém imagina o sofrimento que é ensinar Camões ou Pessoa nas suas "versões em ortografês. Dá vontade de chorar. Pobres poetas mortos, impossibilitados de assinalar "o autor escreve de acordo com a antiga ortografia".