
Quem conheça um bocadinho de história de Portugal - o que inclui a económica - sabe perfeitamente o que é que custou a edificar um módico de classe média no país. Falo da "burguesia", a pequena e a média "empreendedora" ou de "serviços" que, por exemplo, num dado momento a inquisição ajudou a não se formar (e a destruir com método) com as perseguições que moveu e que não eram apenas "culturais". Vitorino Magalhães Godinho também explicou a persistência de elementos de "antigo regime" num século, o XIX, por natureza destinado ao triunfo da referida burguesia na sociedade portuguesa. Persistência essa que transitou para o século seguinte, com défices preocupantes em matéria de industrialização com um sector terciário hipertrofiado e uma macrocefalia demográfica e social preocupantes. Salazar preferia um país manso e habitual, ligado à terra, e com "condicionamento industrial" para não criar lumpen destinado a alimentar as bolsas ideológicas da oposição. O Estado Novo, tal como o actual regime, favoreceu o funcionalismo e os serviços, e a classe média acabou por florescer por aí e por entre o pequeno e médio comércio de bairro e de avenidas novas. A "Europa", com os seus fundos, melhorou o estado da arte das infraestruturas e quase nada as mentalidades chico-espertistas que dominam. A reforma fiscal de Cadilhe "adaptou" (e adoptou), bem como a alteração do sistema retributivo da função pública, esta realidade. O "cavaquismo", tal como o "guterrismo", é o filho pródigo de uma classe média reconhecida que se "aguentou" até aos primeiros anos deste século. Ironicamente o sistema fiscal elaborado a pensar nela, virou-se contra ela. O Estado, social e "associal", cresceu sobretudo fora dele por causa da agiotagem e da plutocracia partidárias. Vítima da voragem própria (modos de vida, nenhuns hábitos de poupança, iliteracias várias) e alheia, a classe média - no fundo, um corpo social remediado e fundamentalmente urbano com nichos de qualidade de vida no "interior" e em algum litoral - desmoronou-se. Ao preferir "atacar" pelo lado de uma receita fiscal exaurida porque a classe média que ela atinge, no essencial, se desmoronou, Vítor Gaspar emerge menos reformista do que supõe. Porque a persistência dos elementos de "antigo regime" a que aludia Magalhães Godinho, aquando da transição do século XVIII para o século XIX, traduzem-se hoje na incompreensível subsistência de blocos aparentemente inatingíveis de despesa pública "modernaça" (como naquela altura, de certos privilégios nobiliárquicos) que impedem qualquer desígnio reformador integral. Há, pois, algo de manco nisto tudo que a História explica. Não aprendemos nada.
4 comentários:
Não li todos (deus me livre), mas este deve ser um dos seus melhores posts até à data.
MAgnífico.
É curioso que os próprios socialistas e esquerdistas não saibam argumentar com factos e em quadros como os que tão bem VMG soube descrever e explicar. Muito obrigado
Um post inteligente.
Vou reler logo o VMG, já que a persistência do "ancien regime" se deu, por essa Europa fora, muito mais do que os conceitos marxistas permitiam, até há uns anos, considerar (e muito menos escrever)... O que, à luz dessa constatação, VNG ele mesmo mudaria? Alguma coisa, nada?
Muito bem!
Enviar um comentário