Apesar de pertencer àquilo que Mário Soares apelida, com a sua proverbial delicadeza, de "falange de assessores" - suponho que Soares conceda a possibilidade de os assessores possuírem cabeça própria e não serem ressentidos -, não deixo de o citar a propósito do Nobel da Paz atribuído à União Europeia. «Porquê agora, quando a União Europeia atravessa a sua maior crise de sempre? Quando quase tudo tem funcionado mal, a começar pelos actuais dirigentes burocrato-institucionais? São questões que ocorrem e nos confundem. Mas pensando melhor, talvez possamos admitir que a iniciativa tem sentido. Durante décadas a Comissão Económica Europeia trouxe ao Velho Continente uma época de paz, de democracia e excepcional bem-estar, para os europeus, no seu conjunto. É certo que não impediu, após a morte de Tito, que a Jugoslávia caísse numa inaceitável guerra civil. Mas sobreviveu bem ao colapso do universo comunista, à queda do Muro de Berlim e, depois, à integração dos Estados de Leste na União Europeia e à unidade das duas Alemanhas. Quanto à Península Ibérica - Portugal e Espanha -, permitiu que duas velhas ditaduras, uma vez reconquistada a democracia, entrassem, no mesmo dia, na CEE e aderissem também ao euro um tempo depois. O euro foi uma excelente ideia que deu um grande impulso à União, embora nunca tivesse criado instituições financeiras (indispensáveis) para tornar o Banco Central Europeu capaz de fabricar a moeda única, independentemente da vontade dos Estados mais poderosos, como a Alemanha. A União criada para dar um impulso federal nunca foi capaz de avançar nesse domínio, única forma de vencer a crise de que hoje somos vítimas. As deficiências da União hoje estão à vista de todos. Se não formos capazes de as superar, caímos num abismo e incorremos numa tragédia de âmbito mundial.»

1 comentário:
Para quê citar M.S ., quando ele próprio esteve directa e indirectamente ligado ao colapso
da U.E ., inclusivamente por interpostas pessoas das suas relações e "famílias políticas" ?
Já o disse e volto a repetir, desde que a Academia premiou Saramago, já nada nos pode surpreender.
Há interesses tão colossais na vertente da atribuição dos prémios , que seria fastidioso estar a enumerá-los. Há que lembrar que a U.E . foi criada apenas, para dar cargos bem remunerados aos políticos europeus na reforma. A Academia gosta de se dar bem com toda a tralha política. É uma boa razão subjacente.
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