«Ler os jornais já não é uma boa maneira de começar o dia. Ver as notícias da televisão já não é uma boa maneira de começar a noite. (...) A televisão e os jornais também foram contaminados por este gosto pelo "horrível", e a RTP, por exemplo, não hesita em nos receber à hora de jantar com meia hora de um acidente ou de um crime de preferência com muitos mortos. Lá por aquelas bandas deve existir a convicção de que lhes pagam para isto. E, com o futebol (em obsessivo pormenor) e uns tiros na Síria, a festa está feita. E é o que, em princípio, os portugueses sabem, ou querem saber, da terra inteira. A pobreza não criou só uma distância material entre o que nós somos e a "normalidade" da "Europa" e da América. Criou também uma distância cultural. Verdade que uns tantos jornais se continuam a lembrar de que o mundo por enquanto não desapareceu e que a Rússia, a América, a China, Israel, o Irão e o Afeganistão continuam a ser sítios de uma considerável importância para a nossa vida. (...) A crise acabou por nos tornar uma tribo que não se vê no mapa, numa periferia de uma periferia.»
Vasco Pulido Valente, Público
1 comentário:
Totalmente de acordo com esta apreciação de VPV . Ainda há dias, a RTP 1 ocupou os 13 primeiros minutos do telejornal com o acidente, naturalmente lamentável, do autocarro que transportava crianças na Suíça.
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