Eu, em matéria de energia eléctrica, prefiro a "pequenina luz bruxuleante" de Jorge de Sena. Porque é a única que verdadeiramente brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumiére
just a little light
una piccola… em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a advinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
Indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
No meio de nós.
Brilha.
2 comentários:
Este poema é muito bom. Gosto bastante dos poemas de Sena - mas não consigo dizer o mesmo do resto - não encontro a mesma facilidade. Enfim.
Publicado em 1958 na Morais,este poema tem-me acompanhado desde então,e agora mais do que nunca. Muito gosto de o ver na blogosfera,onde talvez purifique o ar nocivo que habitualmente por aqui se respira. Tal como o poema seguinte da "Fidelidade","Como de Vós",que oportunamente tambem já apareceu. Obrigado.
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