
Ontem li na revista suplementar do Expresso uma reportagem sobre uns meninos e umas meninas com dezoito anos. A "ideia" era retratá-los "sociologicamente" (o que em linguagem de jornal quer dizer superficialmente) no "contexto" do país: o que andam a estudar, a família, a política, as ambições, o sexo. Estes ainda não fazem parte da mitológica "geração mais bem preparada de sempre" mas é para isso que querem caminhar e, muito patrioticamente, de preferência daqui para fora. Na capa vinha um rapaz politicamente correcto, algures "entre o PS e PSD", em metonímia saltitante de jogador de basquetebol, filho de pais separados (são praticamente todos os entrevistados), praticante de sexo com preservativo e que ambiciona casar e ter filhos. Na mochila carrega Maquiavel e estuda (o que é que ele havia de estudar?) direito. Depois há um "beto" de Cascais, silencioso em matéria sexual, mas muito interessado no "empreendedorismo" e na sua "scooter". Ou um outro do interior que queria ser modelo e umas raparigas mais dadas a preocupações sociais e "artísticas". Embirro com esta monomania de apresentar a geração mais nova como "especial". A minha, para não ir mais longe, está hoje nas empresas, nas universidades, nas magistraturas, na função pública e no governo. Não é nem foi mais nem menos "especial" do que qualquer outra e, perdoem-me a vaidade, foi seguramente muito mais bem apetrechada na escola, da primária ao ensino superior, do que jamais poderá alguma vez vir a ser a "geração Bolonha", tão vitimada pelo desemprego como casais de 40 ou 50 anos de idade, necesssariamente menos mediáticos, mais feios e com menos hipóteses no "terreno" que os primeiros. A única coisa que se pode "invejar" a esta gente é a juventude mas, sobre isso, a estética literária e o fast food social, cultural e sexual já disseram o que tinham a dizer. Mas como dizia a Magnani, não me tirem as minhas belas rugas que tanto trabalho deram a arranjar.
7 comentários:
a minha geração raramente incluía gente abaixo da classe média baixa. com excepção de muitos da média e alta burguesia, preparou-se para subir e assim aconteceu.
não havia sociólogos, psicólogos, politólogos e quejandos inúteis. fizemos progredir o país, dentro e fora. exportou-.se gente não qualificada.
esta REVOLUÇÃO DE INVEJA, ÓDIO E CRETINICE, destruiu o que fora feito e levou-nos ao estado em que nos encontramos e donde dificilmente sairemos.
Mario Draghi disse ao WSJ que o modelo sociaL EUROPEU ESTAVA MORTO.-
preparem-se para as mudanças que vão ocorrer e que os dirigentes europeus se recusam a admitir: miséria, desemprego, baixos salários.
Haverá sempre a ideia de que "a minha" foi sempre melhor que a "tua".
Confesso, que quando olho para anteriores gerações vejo que é vista e comparada com as actuais com parametros distorcidos, alias tal como os seus pais o fizeram também.
Mas o que é certo é que actualmente a concorrência ao nível intelectual, tecnológico e cultural é imensa, muito superior ao de à 30 anos atrás. À 30 anos o grupo de amigos/conhecidos expandia-se no máximo a 10 ou 20, no qual metade casaria aos 22, fecharia-se em casa ou acabaria os "estudos", arranjando um trabalho para o resto da vida. O avanço nas comunicações e tecnologias mudaram o mundo, a partir dai nada ficou igual. Há claramente uma barreira que separa 2 ou 3 gerações.
A geração actual, com 26, já correu a Europa, o mundo, leu dezenas de livros, tirou cursos, viu concertos, fez ou faz 3 ou 4 desportos, fala 3 ou 4 línguas, trabalhou em parte-times, ainda não encontrou o seu emprego para a vida, porque essa ideia já não existe, fazem da insegurança estimulo para arrancarem para novos projectos, tem centenas de conhecidos e amigos de todos os países e regiões, é multitask em dezenas de tarefas que um qualquer cérebro "do antigamente" entrava por certo em fusão dada a quantidade de informação.
Hoje quando me sento num café com os meus amigos é dificílimo conseguir enganar alguém, ter uma conversa que não vá bater de frente com provas, analises, experiência, ciência. Toda a gente tem acesso à informação, que é imensa, tem um percurso laboral e académico de invejar e ainda nem sequer entraram na fase "casa->trabalho->mulher-filhos", que é obviamente bastante limitadora.
Quanto aos cursos mesmo que pequenos e curtos, 3 anos, obrigam os alunos a assistir a todas as aulas, coisa que antes de Bolonha funcionava pela base da "balda" o ano inteiro e marranço nas semanas dos exames. O que ficava? Zero.
Meu caro, o que estava á espera?
Nunca reparou que, quando ministro vai à escola, quando é preciso publicitar uma nova e revolucionária reforma, rankings de resultados e outros acontecimentos afins e sociais, só são apresentadas escolas de "topo", de betos e afisn?
As escolas problemáticas nunca são apresentadas , a não ser que que haja desgraças de qualquer tipo, que dê notícia.
E não esquecer um dos marmanjos que diz,quase com orgulho,que só leu um livro na vida porque o obrigaram na escola. Quanto à reportagem vale o que vale,como dizia o outro,mas penso que tem algum interesse saber algumas opiniões avulsas e relativamente francas dos nossos teenagers. Porque não? Se não se forem todos embora,vamos ter que os ver por aí nas televisões a deputar ou a governar,sabe-se lá. E que bem preparados estão!
A minha geração procurava afanosamente empregos, a geração actual espera que o emprego lhe caia no regaço, sem qualquer esforço.
Por esse mesmo motivo é que muitas empresas continuam a procurar trabalhadores e pasme-se , não se encontram !!!
Vou fazer 42, dou aulas, mas sinto-me, porque o sou, precário e potencial desempregado. Duas filhas. Lugar nenhum aonde ir.
Quanto a F das oo.53. Bom comentário em geral,criticando com razão a tendência geral de acharmos que "antigamente é que era bom". Concordo tambem com a maior concorrência actual ao nivel intelectual e tecnológico,mas já não o acompanho no cultural. A lenta retirada das "Humanidades" no ensino geral terá certamente fatais consequências. Tenderemos a criar robots ágeis "intelectual e tecnològiamente",mas vazios de espírito,que nem sequer saberão o que é. Sem História e um pouco de Filosofia não se é humano.
Enviar um comentário