24.5.14

Dia de pastar a vaca


 


«O "dia de reflexão", na sua prudência e no seu rigor, impede que se escreva uma palavra sobre política, não vá o eleitor sensível ser indevidamente influenciado à última hora. Esta restrição, de resto, não incomoda ninguém. Segundo a grande imprensa e as televisões, Portugal tem vivido com todo o conforto intelectual da receita para tempos normais: do Benfica, de Ronaldo, do crime e das catástrofes naturais. Bastou o Benfica para nos trazer semanas num incomparável balanço de entusiasmo e de angústia. O campeonato foi uma espécie de acto divino contra a inaturável arrogância do domínio alheio. A Taça da Liga foi uma satisfação merecida. Turim, desgraçadamente, um desespero. E a Taça de Portugal, que fechou um "triplo" nunca visto, desceu até ao fundo do coração. Melhor do que isso, cada português pôde viver esta epopeia em pormenor: os jogos, que nos animaram e apoquentaram; os prognósticos délficos dos sócios; os comentários (muito variados do treinador e dos jogadores do dia); as sessões triunfais no Marquês de Pombal e em vilas num canto obscuro da província. Esta força, esta glória, que desabaram vicariamente sobre nós consolam muito. E também a análise douta dos peritos, que revela o que nós não conseguimos ver e nos descobre de repente a cintilante beleza de um movimento táctico. O Benfica, confessemos, subiu à vertiginosa altura de Portugal. Só a lesão muscular de Ronaldo, que não passa de vez, verdadeiramente nos preocupa. Ele precisa ainda de ganhar a Champions e o Campeonato do Mundo para nos curar e redimir. Entretanto, além da final entre o Real e o Atlético de Madrid e as próximas batalhas do Brasil, a televisão e a imprensa oferecem, para a nossa distracção e aprimoramento cultural, uma dose tranquilizante de crime crapuloso. Não faltam tiros, não faltam facadas, não faltam crianças desaparecidas. Caso mais notável, não faltam mesmo malfeitores desaparecidos. Manuel Baltazar, o Manuel "Palito", por exemplo, que matou a sogra e uma tia e feriu a mulher e a filha, resistiu à perseguição da Judiciária e a forças da GNR a pé e a cavalo durante 34 dias, no imenso território de São João da Pesqueira. A confiança das populações na autoridade, se existia antes, com certeza que se fortificou. E o português valente ressuscitou. Bem precisava.»


 


Vasco Pulido Valente, Público


 


«Se eu quiser escrever que foi penoso ver a "rua" dos candidatos, em particular, os da maioria, será que o posso dizer? Será que posso dizer que a "rua" desses candidatos foi uma completa mistificação para obter imagens televisivas, daquilo que foi um dolo total, um não-acontecimento, feito de toca e foge, para não haver sarilhos, será que o posso dizer? Será que posso escrever que foi também penoso ver os líderes do PSD, chamados à campanha pelo mestre da coreografia mediática, numa pirueta do tipo das que os seus discípulos na comunicação social gostam muito, e totalmente vazia de significado político, e depois terem tanta vergonha dos candidatos e da campanha que chegaram às suas imediações pestíferas... para irem apoiar o candidato luxemburguês ou dizerem que "votem A ou B, o que conta é votarem"? Será que posso falar da indigência dos candidatos da maioria, a fazer campanha contra um primeiro-ministro do passado, como se agora o PS resolvesse fazer uma campanha contra Santana Lopes? Ou, do vai-não-vai de Mário Soares, à campanha do super-homem da Juventude Socialista de peito feito em que uma caneta inscreve a fogo ou a sangue uma cruz? Ou de como o selfie do PS é uma afronta aos direitos humanos da câmara fotográfica que teve de rebaixar a sua condição de telefone inteligente para minimizar o ar de parvos dos fotografados, que é o aspecto que os selfies dão às pessoas? Será que posso hoje falar em nome dos direitos da máquina, obrigada a estas violências? Será que posso escrever que a campanha de Marinho e Pinto, a única campanha dos pequenos partidos que, por puros critérios jornalísticos, devia ter uma muito maior cobertura, até porque o seu populismo é uma "fruta da época" que exige atenção, foi a mais prejudicada de todas por critérios que favorecem sempre PSD, CDS, e PS? Será que posso dizer que a campanha mais verdadeira, menos enganadora, aquela em que o que há é o que se viu, foi o retrato cruel da solidão política do POUS, no momento em que as televisões filmaram solitária, com a mesma faixa sempre reciclada, Carmelinda Pereira à porta de uma fábrica? Ou dizer aquilo que é evidente que a única campanha que não teve medo da "rua" foi a da CDU, porque é o que é, e a mais não se sente obrigada? E está hoje, como sempre, melhor entre os velhos de Serpa, do que a do PSD-CDS que nem sequer já tem o "cavaquistão"?»


 


José Pacheco Pereira, idem

5 comentários:

fado alexandriuno disse...

Os intelectuais fogem da bola como aquele senhor fugia do toucinho.
Ao mesmo tempo o povinho também foge deles, e faz muito bem.
Entretanto Lisboa recebeu umas largas dezenas de milhares de espanhóis que largaram cá largos milhões de euros e que de outra maneira nunca cá poriam os pés.
700 movimentos nos aeroportos de Lisboa e Cascais.
Dois mil VIP's, um Rei e uma Rainha.
Tudo a custo praticamente zero.
Se encontrarem outro acontecimento que produza o mesmo, façam favor, digam.

Costa disse...

A custo praticamente zero? Por razões profissionais posso afirmar que no aeroporto de Lisboa, operadores regulares e passageiros sofreram atrasos por vezes bem significativos, no sábado e no domingo. Algum custo resultou desses atrasos. O fecho de ruas ou o condicionamento de trânsito em outras, algum custo acarretou. As concentrações de adeptos, como por exemplo no topo do parque Eduardo VII ou no Terreiro do Paço, idem. O levantamento das restrições ao tráfego aéreo, nocturno, de e para o aeroporto de Lisboa (entre outros), idem.


Enfim, dirá V. que a relação custo/benefício resulta aqui muito favorável para o benefício. Talvez assim seja, na fria lógica dos grandes números, sempre surda a valores não imediatamente aferíveis em dinheiro, ou que se perdem na impotência do indivíduo perante o estado (ou as hordas futeboleiras, sempre impunes, sempre acima da lei, sempre estremecidamente acarinhadas pelo poder).


De Portugal, como quase sempre, só se fala - favoravelmente, pelo menos - por causa da bola. É pouco, é triste; pior, apouca. Mas o tal povinho gosta assim. Mais do que isso, ou diferente disso, é para (horror!) intelectuais.


Donde, está muito bem.


Costa

fado alexandriuno disse...

Obrigado.
Acompanhei detalhadamente em 119.1 todo o excepcional trabalho feito pelo controlo de aproximação de Lisboa.
Houve atrasos como seria evidente e como seria normal em qualquer aeroporto da cidade que acolhesse esta final.
Todas as outras coisas que aponta vão ocorrer na próxima cidade finalista ( e são como pão quente a tentarem o lugar) e provavelmente com mais incidentes do que os que houve em Lisboa que foi favorecida por os finalistas serem não só da mesma Nação como ainda da mesma cidade.
De Portugal fala-se muito favoravelmente de inúmeros campos mas infelizmente a boa notícia não vende e os jornais, e até muitos blogs, cultivam o mau em detrimento do bom.
É um bocadinho genético.
Agradeço a João Gonçalves ter suscitado esta troca de impressões.
Melhores cumprimentos a ambos.


Nota final. Sou fervoroso (outros dirão doente) pelo Benfica. 

Costa disse...

É capaz então de me ter ouvido, em espera, para os lados de EKMAR . Ou a tentar "sair", em 118.950 ou 121.750. E tive bem mais sorte do que alguns. Quanto ao resto, olhe... deve ser deste país ser a tal questão que temos connosco próprios.


Mas é bom, de facto, poder trocar impressões, mesmo que seja para discordar, civilizadamente. É raro, por estes tempos.


Costa


Nota final: quanto ao futebol, eu confesso que tenho uma posição não exactamente tolerante. Por mim ia tudo preso, de roupeiro para cima, invertendo-se a presunção de inocência; interditava-se a prática profissional da modalidade, em Portugal, e demoliam-se todos os estádios filhos da histeria do Euro2004; nos seus terrenos seria absolutamente interdito outro uso que não o de parque público, devidamente cuidado - NUNCA(!) o de "urbanização". Dentro de uns anos, decerto muitos atendendo à placidez da nossa justiça, com tudo esclarecido (dinheiros, fisco, terrenos, etc., etc.), admitir-se-ia o regresso controlado - muito controlado - do futebol profissional.


Não me leve a mal. É um desabado (afinal ou muito me engano ou eu, pacato cidadão, pago bem mais impostos que muitos milionários do futebol, jogadores ou não).

fado alexandriuno disse...

Muito obrigado e parabéns pela paciência com que aguardaram em EKMAR (felizmente desta vez não foi em UMUPI nem RINOR) um lugar no estacionamento.
Por acaso uma das coisas boas que se fala cá dentro e lá fora
e a extrema qualidade dos pilotos portugueses.
Sobre os estádios por feliz casualidade hoje no Brasil começa a aventar-se a hipótese de o de Manaus ser transformado em cadeia.
Parece que têm telepatia com o senhor.
Melhores cumprimentos.