26.5.14

Entre o pântano e a farsa


 


Um pouco por essa Europa fora, aquilo a que pomposamente chamam de "arcos de governabilidade" (uma metáfora para designar o apostolado acrítico do tratado orçamental) sofreu um forte abalo. Pessoas que votaram seguramente em Hollande há dois anos, por exemplo, deram agora a sua "confiança" a Marine Le Pen. Na Grécia, decerto sucedeu o mesmo com eleitores da "nova democracia", ou do PASOK, que se "passaram" para o sr. Tripsas. Ou em Inglaterra, ou na Dinamarca, ou na Holanda, etc. etc. Mesmo assim, o sr. Juncker, do alto da sua inconsciência eleitoralista, já proclamou vitória para a Comissão Europeia porque, na verdade, a burocracia bruxelense, da qual ele é um dos principais tenores, "satisfaz-se" com a prevalência bonza do pastelão PPE/PSE. Merkel também venceu, como o panhonha Rajoy, e dificilmente a "europa" estará disponível para reflectir sobre a enorme derrota que a indiferença, a irritação e o individualismo lhe infligiram. Se calhar tem de ir a mal, logo se vê. Por cá, a coligação do governo foi humilhada quer por quem se dispôs a ir votar*, quer por quem ficou a ver passar os comboios. Merecidamente, aliás. E o PS limitou-se a adquirir uma vozinha quando precisava de uma voz. Como se isto não bastasse, o PC veio a correr anunciar uma moção de censura que apenas serve para a defunta "AP" se reerguer um poucochinho exibindo no parlamento a sua legitimidade política formal quando já nada de novo tem a "oferecer" ao país. Tudo somado, entrámos no pântano que Guterres, em Dezembro de 2001, pretendeu evitar com a sua lúcida demissão. O regime, sob o alto patrocínio do Senhor Presidente da República que no 10 de Junho virá reforçar o dito pântano com a converseta dos "compromissos" e dos "consensos", entrou num registo de farsa. O governo vai fingir que governa até às legislativas (e os drs. Passos e Portas que se suportam mutuamente desfeitos em amabilidades cínicas) e o PS vai fingir que "um voto a mais", nessas legislativas, consumará a salvação da pátria. Infelizmente não há ninguém que nos salve desta perigosa mediocridade regimental. Se calhar não merecemos melhor.


 


*«PSD e CDS têm, em conjunto, menos 12,4 pontos percentuais que nas anteriores europeias (quando estavam na oposição), menos 22,8 pontos percentuais que nas legislativas de 2011 e menos 8,3 pontos do que aquilo que as sondagens para as legislativas lhes atribuem neste momento.» (Pedro Magalhães)

2 comentários:

fado alexandriuno disse...

E se,
Marinho e Pinto fosse o começo de um PRD Versão II aumentada e melhorada?
Vontade não lhe deve faltar.
Votos já tem 234,524, para quem partiu do nada ...

Inexequível dos Campos disse...

Mais do que isso: PSD e CDS têm menos 520 000 votos que em 2009.
Se isto não é uma derrota estrondosa, deve ser uma espécie de ajustamento controlado já com sinais de crescimento. 
Shame on you!