7.2.14

Inimigos de objectos interpretáveis

Vasco Pulido Valente, no Público, não deixa de ter alguma razão quando pergunta "a que propósito andamos nós preocupados com Miró" ao mesmo tempo em que, por exemplo, "não se investe na reabilitação urbana, nem em monumentos em ruínas ou perto disso, nem em bibliotecas, nem em arquivos". Por outro lado, «em Dezembro, 99 por cento dos portugueses nunca tinha ouvido falar, nem queria ouvir falar em Miró. Na oceânica ignorância em que “a geração mais bem preparada de sempre” rejubila, isto é um pormenor sem qualquer importância. Eles não sabem nada de pintura, como de literatura, como de história; nem sequer sabem que a água ferve a 100 graus C; mas conhecem em pormenor as bandas pop com que foram criados e muito mal criados, e o que se passa dia a dia no facebook». No fundo, Miró viria juntar-se um pequeno número de pérolas a porcos por que passam algumas escassas coisas materiais e imateriais que aparentemente só interessam a "amigos de objectos interpretáveis" para recorrer a um título de Miguel Tamen. E, de facto, os tempos parecem dar razão a quem acha que estes "objectos interpretáveis", desde que representem "dinheiro chave na mão", podem ir à vida, directamente "a" mercado porque decerto contribuirão para "atenuar" os mais de cinco mil milhões de euros que a portugalhada foi forçada a enfiar no excrementício BPN. Sucede que não é pela circunstância de os quadros ficarem ou não em Portugal que se passa a "investir" na reabilitação urbana, em "monumentos em ruínas", em bibliotecas ou em arquivos com bem enuncia Pulido Valente. Nada disto é "empreendedorismo", "inovação", "excedente orçamental" ou, muito menos, uma realeza denominada "empresa" que é o orgão masturbatório por excelência de quem fala alto na praça pública e despreza, por ignorância atávica, as inúteis humanidades que, por descaso delas, "formaram" uma civilização. Nem tão pouco "dão" carros topo de gama em troco de "facturas da sorte" que mereceram dos nossos vizinhos espanhóis o condescendente epíteto de "pitorescos". Não. Nós somos velhos e relapsos "inimigos de objectos interpretáveis" e, consequentemente, como escreveu Jorge de Sena, «uma lamaceira aonde a gente só esparrinha a lama.»

4 comentários:

carlos serio disse...

Agora que falhou a venda dos quadros Miró “projecto quadros na mão” perdão, “projecto chaves na mão” como diz Passos Coelho, avizinha-se o sorteio das Finanças dos carros “topo de gama”.
Eu só não sei se ele se vai realizar na RTP ou na SIC.
Deverá contudo ter à presidência (palpite meu) o nosso Pres. Cavaco Silva para lhe conferir a máxima credibilidade, pertencendo a introdução dos “cupões” na bola da sorte à nossa ministra das Finanças, vestida com trajes graciosos, presumo.
E, na primeira sessão, porque não a presença em força de todo o governo: Passos, Portas e restante comitiva.
Até podiam convidar o Herman José e o popular Toy para animar a festa. E alguns membros da Troika? Ou até Durão Barroso? Porque não?

Q disse...

Verdade verdadinha: "nem sequer sabem que a água ferve a 100 graus C"
Lá dizia o outro, após ter respondido 90 graus:
"Ah pois, pois. 90 graus é a temperatura a que ferve o ângulo recto"!

Equipa SAPO disse...

Bom dia,

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Atenciosamente

Catarina Osório
Gestão de Conteúdos e Redes Sociais - Portal SAPO

Justiceiro disse...

Não sei quem é esse Miró, não tem (não é engano, não é tenho, é mesmo \"tem\") qualquer interesse saber e do que vi nos media, aquilo é tanta arte como os gratifis onde não se percebe nada, ou seja, vale apenas para tapar umas paredes com humidade e sujas, mas ainda assim fica mais bonito pintar a parede que essa coisa.
Quero que vendam e privatizem tudo o que é público, o estado não tem de ter mais de dez cinco funcionários. Tudo deve ser privado!