
Sem lá ter estado, Vasco Graça Moura, neste pequeno texto, resume perfeitamente o "ambiente" meloso em que decorreu a apresentação do livro de Maria João Avillez com Vítor Gaspar dentro. A primeira é como que a decana dos jornalistas do regime e, talvez também não por acaso, Eduardo Lourenço - o decano dos "intelectuais" do mesmo regime e, porventura, o heterodoxo mais ortodoxo dele ao fim de tantos anos e de tantas sepulturas precoces de coevos, melhores e piores do que ele, que conheceu e com quem conviveu -, sentava-se na primeira fila à distância de dois secretários de Estado, e de um funesto Crato, do primeiro-ministro. O tom geral foi jubilatório, auto e hetero complacente - a decana justificava parte da frioleira: afinal, eram os seus amigos "transversais" que ali acudiram em grande número -, e nem Vitorino nem Gaspar destoaram. Parece que no decurso das conversas declinadas depois em entrevista-livro, Gaspar "esclareceu" muitas das "ignorâncias" da entrevistadora (auto-revelação em directo). E não sobram dedos de mãos e pés para os autores e "europeístas" citados pelo antigo comissário europeu a partir da aparente citação deles por Gaspar. Fisicamente, criatura (Passos) e criador (Gaspar) estavam frente a frente na disposição da sala. Do púlpito, Gaspar como que ergueu a espada literária de Mensagem e armou Passos em inesperado cavaleiro reformador (que fez e fará ele, o reformador, com essa espada?). Louvou-se numa frase epistolar de Isaiah Berlin sobre Chefes da qual apenas se serviu da parte que permitia arvorar o visado num putativo e milenarista salvador da pátria (mais um), nem que para tal (as primeiras frases de Berlin), e como trágica e inevitável condição para o efeito, tivesse de sacrificar os seus amigos políticos. Sem o fazer, jamais se ergueria às alturas em que Berlin, aka Gaspar, o idealizou. A maioria dos presentes decerto saiu daquele exercício de alma, e de Gaspar, lavada enquanto, no outro lado da cidade, o dr. Portas, o novo supra-Gaspar, emergia num fantasioso "porta-aviões" de exportações e a prometer mais "reformas do Estado" para Março. Ao contrário do que diz Gaspar, em Julho não era "um ministro ou o outro". São os dois, cada um "criador" à sua maneira, com o "reformador" de permeio, e em campanha, para nos salvar ou danar.
Foto: Correio da Manhã
4 comentários:
Estou faro de vigaristas e mentirosos. O sr. não está?
Apenas um erro nos títulos atribuídos inicialmente aos actores.
Se Portas fosse desde inicio Vice- .., como devia ser, sendo o chefe do outro partido da coligação, nenhum destes percalços teria ocorrido. Não deveria ter lembrado a ninguém chamar # 2 do governo, naquele caso, a um Min . das Finanças.
Nem "do Mar" (!) a outro. Tudo isto se teria sido evitado.
Portas, lenta, assertiva mas irrevogavelmente, repôs a hierarquia como era seu direito.
Gaspar apenas completa o seu CV de "expert" apolítico.
A chacun sa place ....
Fez falta no lançamento desse livro um grande pensador contemporâneo e um dos homens de letras que mais brilho faz derramar sobre a ignorância do gado nacional. Falo de Miguel Relvas, obviamente.
"Ambiente" (e discursos, e artigo do VGM) melosos... eu diria graxistas, manteigueiros, sebosos, azeiteiros, oleosos. E nós todos fritos.
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