20.2.14

A bordo do porta-aviões

 



 


 


«Há um antes e um depois da crise do Verão passado. Até então prevalecia uma obsessão programática que tinha fundamento, horizonte e sentido. Estava errada, a meu ver, pela razão simples de descurar uma rigorosa avaliação da realidade. Agora o que subsiste é outra coisa: um discurso que vagueia entre a propaganda e o lugar-comum, desprovido de projecto e igualmente distante da realidade nacional. Este livro de Maria João Avillez e Vítor Gaspar tem, entre outros, um inegável mérito: confronta-nos com a distância que existe entre o erro da inteligência e o erro da mediocridade. Dir-se-á que o resultado é o mesmo. Infelizmente não é: o erro da mediocridade tem sempre um especial deficit de grandeza.»


 


Francisco Assis, Público


 


 «O combate da exclusão, da perpetuação institucionalizada da desigualdade e da desigualdade social, associado à vital necessidade de mecanismos de mobilidade social, em que o estado tem um papel fundamental, são as bases de uma política alternativa em que quem governa mantém uma empatia essencial com o destino dos portugueses, mantendo um sentido de pertença e de comunidade. Exactamente o contrário do que tem acontecido, em que um discurso punitivo do viver acima das suas posses legitima uma espoliaçáo brutal de recursos dos do meio, dos de baixo . Mais do que isso - e disso o PS não fala e permite -, o afunilamento e a destruição dos canais que permitiam uma mais justa distribuição dos rendimentos, por exemplo, como o pagamento do trabalho. É que se esquece que quando se paga um salário não se está a fazer um acto de caridade que se pode encolher a seu bel-prazer, mas a retribuir trabalho e esse trabalho tem valor social e económico. Estas políticas alternativas não são nem as do PCP, nem as da extrema-esquerda, como a enorme deslocação à direita do espectro político pode levar a crer e alguns ignorantes papagueiam como acusação. São politicas na tradição social-democrata e é tal vez por isso que muitos sociais-democratas e alguns democratas cristãos têm sido mais eficazes a combater - a palavra é mesmo essa - o programa de desigualdade social assente numa hierarquia de poder, dinheiro e establishment, do que os socialistas. O que não se pode admitir é que o discurso da retoma, da recuperação económica, seja sempre apresentado como tendo como condição não haver qualquer recuperação social . É por isso que o Governo, ao mesmo tempo que mantém e justifica manter milhões de portugueses numa perspectiva de depressão social prolongada para décadas, pode considerar que tem alguma coisa para festejar.»


 


José Pacheco Pereira, Sábado


 


 «Infelizmente, como certamente vamos confirmar no próximo fim de semana com o Congresso do PSD - mas podia ser de qualquer outro partido - a situação mantém-se inalterada, o apocalipse partidário continua sem nenhum verdadeiro fim à vista. Na verdade, o que hoje é preciso é começar a olhar mais para a sociedade do que para os partidos, deixando de fazer deles os bodes expiatórios do que a sociedade não quer, ou não consegue, ver. Talvez assim se compreenda melhor porque é que, apesar de tantas e tão contundentes críticas aos partidos que temos, não aparece de facto nenhuma alternativa, ou seja, nenhum partido mais aberto, mais credível, mais inovador, mais mobilizador, mais dedicado ao bem comum, enfim, mais virtuoso. E a resposta a este impasse encontra-se na sociedade, não se encontra nos partidos.»


 


M.M.Carrilho, DN


 


 «Ao contrário do que se diz, poucas instituições conhecem a macroeconomia portuguesa tão bem como o FMI. Eles não nos visitaram três vezes - estão cá desde a primeira. Nunca saíram de Portugal, há mais de trinta anos que têm delegação fixa e tê-la-ão pelo menos mais vinte, para cuidar dos seus empréstimos. Não são senhores de preto que aterram e descolam. Eles estão. É o FMI, não o Bloco de Esquerda, que escreve: "O ajustamento externo tem sido conseguido, em larga parte, devido à compressão das importações de bens que não sejam combustíveis e, ultimamente, ao crescimento das exportações de combustíveis". É o FMI, não o PS, que prossegue: "Esta dependência (...) arrisca enfraquecer os ganhos conseguidos até à data, assim que as importações recuperarem de níveis anormalmente baixos e as unidades de refinação eventualmente esgotem a sua capacidade 'extra', ao mesmo tempo que a melhoria na exportação de serviços é vulnerável a choques à procura de turismo." (...) É um anticlímax. Oportuno. (...) A partir de meados do ano passado, o consumo privado voltou a subir, sustentando grande parte da retoma económica. Ou seja, os portugueses estoiraram parte do que haviam poupado. Isto significa que a poupança não serviu essencialmente para financiar investimentos (através de crédito bancário a empresas), mas para consumo. Olhando para os hotéis, para as vendas de "tablets" no Natal e de automóveis em Janeiro, percebe-se em quê. Há uma boa parte da nossa retoma que é cíclica. Isso não tem mal nenhum, mas ajuda a relativizar o "milagre". (....) Muitas reformas estruturais não foram feitas, começando pela anedota (já lá vamos) da reforma do Estado, que anda há mais de um ano de gaveta vazia em gaveta vazia. Perdeu-se oportunidade para reestruturar grande parte da nossa economia e a dívida pública está a um nível assustador. No final do ano passado, o Banco de Portugal surpreendeu com um relatório crédulo e optimista: a economia portuguesa, escreveu o Banco, tinha mudado para sempre. As famílias portuguesas tinham-se tornado poupadas, as empresas tinham-se tornado exportadoras, éramos um País novo. Soou mais a vontade do que a diagnóstico. Ainda desejo que o Banco de Portugal esteja certo. Mas para isso o FMI tem de estar errado. Redondamente errado. Porque o relatório que publicou hoje é paralelepipedicamente o contrário dessa crença. E logo agora que isto estava tudo a correr tão bem. PS: Finalmente, a anedota: o Governo português garantiu à troika que o guião da reforma do Estado de Paulo Portas vai transformar-se em propostas concretas em Março.»


 


Pedro Santos Guerreiro, Expresso

Sem comentários: