11.2.14

A mais nobre solidão


 


À memória de Luís Seabra Duque


 


Faz hoje precisamente um ano que o agora Papa Emérito Bento XVI anunciou a sua resignação. O deplorável espectáculo do mundo entretanto agravou-se. Raztinger não ficará na história como um Papa banal nem tão-pouco como o profeta das trevas que muitos teimavam ver representado nele. Há décadas que vinha avisando a Igreja para se preparar a viver em ambiente minoritário e liberta espiritualmente do imperativo categórico da "correcção" contemporânea. Sabe que a sua sobrevivência, nestes tempos levianos e superficiais de efeito fácil, depende muito da intransigência em manter-se um olhar céptico e realista para dentro da própria Igreja, para a "condição humana" da Igreja - homens e mulheres dela, e leigos, já que ninguém é obrigado a ser cristão, muito menos católico. Como escreveu em A Luz do Mundo, «o Mal pertencerá sempre ao mistério da Igreja. Se olharmos para tudo o que os homens, e nomeadamente o clero, fizeram na Igreja, temos aí verdadeiramente uma prova de que Ele fundou a Igreja e a sustém. Se ela apenas dependesse dos homens, há muito que já teria perecido.» O Papa Emérito continua a ser, na nobre solidão do seu silêncio, uma das personagens internacionais mais estimulantes deste precário século XXI tão parco delas.

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