27.2.14

A política da promessa acabou


 


«Nesta sociedade líquida, de eleitores relapsos a quaisquer baias ideológicas e frívolos no seu intocável individualismo, os partidos sentem-se cada vez menos motivados não só para grandes definições ideológicas, mas mesmo para a simples adopção de programas e projectos muito precisos, procurando antes adaptar-se à maleabilidade da própria sociedade, num círculo que se revela pesadamente vicioso. É nisto que, em todo o Ocidente, estamos. O paradoxo, contudo, permanece. E todos os estudos de opinião revelam que a maioria dos cidadãos pensa que pior que um regime político de partidos, só um regime político... sem eles. Das três dimensões dos partidos políticos, a clubista (que é a mais tribal), a pretoriana (que vive do e para o chefe) e a cidadã (que valoriza as ideias e a sua discussão), o caminho tem-se feito sempre em prejuízo desta última, e é isso que, com toda a evidência, se vê em congressos como o do PSD do último fim de semana. É todavia no sentido inverso que é preciso trabalhar, visando a qualificação interna dos partidos, uma qualificação que os torne capazes de retomarem a sua função de instituições capazes de promoverem a oferta política com ideias, propostas e projectos, desafiando assim a própria sociedade (...). Hoje é preciso trabalhar com menos hierarquias e apostando mais no saber e no conhecimento. Até porque esse é o único modo de os políticos travarem com sucesso o grande combate que se anuncia para os próximos tempos, e que será entre o populismo e a tecnocracia, que conta já hoje tanto ou mais do que a tradicional oposição direita/esquerda. A era da política da promessa acabou, já o escrevi há tempos. Precisamos agora de partidos e de políticos que pensem no médio/longo prazo, mas também saibam improvisar com competência. Que compreendam as grandes interdependências globais, mas também saibam aproveitar - ou mesmo criar - margens de manobra para os seus países. Que expliquem aos cidadãos o que fazem, mas também consigam exigir à sociedade uma verdadeira cumplicidade na descoberta de novas vias para o futuro.»


 


M. M. Carrilho, DN

Sem comentários: