
Tenho andado a ler mais "literatura" política do que outra qualquer. Não é impunemente que se trabalha dois anos para um governo - mesmo para "este" governo "deste" país - sem resistir a algumas "comparações". Dizia-me ontem um amigo, sensivelmente a fazer a mesma coisa, que tinha andado por uma biografia do De Gaulle. Lá vinha a famosa "decisão irrevogável" de ir embora. Homens grandes como De Gaulle tomavam decisões e se eram, como foi a derradeira, "irrevogáveis", eram mesmo. Nunca lhe passaria pela cabeça declinar "irrévocable" como exactamente o oposto embora pequenos candidatos a epígonos o façam como se falassem de alfaces por agriões. Este exercício, para além de valer à minha literacia política e histórica, também me ajuda a encontrar um "tom" para colocar em letra de forma os dias e as horas destes dois anos. Dantes esperava-se décadas antes de fazer uma coisa dessas, mas hoje ninguém falaria dos actuais protagonistas daqui a, vamos lá, uns dez anos a não ser a título de meia dúzia de vagas notas de rodapé. Está prometido ao país um deadline para 2015 o que, num país sem memória, é amanhã. Uma gramática, ou um dicionário, do que para aí anda é quase um dever de cidadania para evitar maiores desastres. Há dias revi, neste contexto o filme Nixon de Oliver Stone. E leio-lhe uma biografia. Antes de anunciar ao país a sua demissão, em Agosto de 1974, Nixon/Anthony Hopkins passa pelo retrato de J. F. Kennedy na Casa Branca. Comenta: "tu és o que eles (os americanos) sempre sonharam ser, e eu sou o que eles são". Talvez Stone se tivesse inspirado numa curta alusão de Gore Vidal, num artigo sobre Nixon, escrito sensivelmente na mesma altura em que o lado "negro" do 37º Presidente dos EUA começou a revelar-se: "somos Nixon e ele é o que nós somos". Esqueçamos os nomes e vejam lá se, afinal, "eles" são ou não são o que nós somos. E se nós somos ou não somos o que "eles" são. Vem em qualquer vulgata democrática.
2 comentários:
Interessante, como tudo o que neste blogue se publica. Apenas discordo da «grandeza» de Charles De Gaulle . Da sua grandeza como estadista, digo, que não da sua grandeza humana.
Boa noite,
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Atenciosamente,
Catarina Osório
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