9.8.13

Um novo Portugal


 


«O Diário de João Chagas, publicado postumamente depois do "28 de Maio", é um dos melhores livros de memórias políticas de uma literatura que não se distingue no género. Chagas tinha sido um dos participantes na tentativa de revolução de 1891, degredado para África, exilado e revolucionário do "5 de Outubro", além de ser também, e até ao fim, um admirável escritor (que hoje, evidentemente, ninguém lê). Em 1914, embaixador em Paris, observando de longe as desordens da pátria, começou o Diário, que, no fundo, não passa da história da sua desilusão com a República, por que tanto tinha esperado e sofrido. Essa desilusão, que não seria estranha a uma boa parte do partido liberal, nem à gente da Monarquia no fim do século XIX, aparece agora outra vez nos poucos sobreviventes da ditadura, que receberam o "25 de Abril" como a esperança de um novo Portugal e a justificação de uma vida.» O artigo de Vasco Pulido Valente continua no Público e termina nos dias de hoje. Porventura algum leitor poderá acabá-lo. Uma coisa é certa. Tal como nunca chegou a nascer o "novo homem português" do Doutor Cavaco, da mesma forma que a "paixão pela educação" e o imenso "coração" do eng. Guterres não conduziram o país a parte alguma, ou a robótica "modernizadora" e autoritária do eng. Sócrates também não, Passos Coelho, atado de pés e mãos numa mistifiação autocomplacente de "coesão e solidez", é a nova desilusão portuguesa que, ajudada pela troika, nos levará, uma vez mais, até um "novo Portugal". Para já, esteve ontem o tempo suficiente na Gomes Teixeira para perceber que se equivocou quanto ao "futuro" da segunda fase da legislatura que tão brilhantemente abriu há quinze dias sob o alto patrocínio da sua nova prótese direita (sim, aquilo não é manifestamente um braço e muito menos direito) e do Senhor Presidente da República. Quem sobrar para ver e contar, o dirá.

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