16.8.13

"A reforma do Estado"

«Em princípio parecia que os portugueses estavam no seu pleníssimo direito de saber que espécie de Estado se prepara e de se pronunciar na Assembleia da República (ou num referendo) sobre a forma e as funções da autoridade que manda e continuará a mandar neles. Mas, como se vê, o governo só se lembra deles para pedir dinheiro. Sobre a organização colectiva da sociedade não diz palavra. O segredo traz grandes vantagens: impede protestos, não permite discussões sobre alternativas, retira de cima da mesa interesses legítimos. O sr. Passos Coelho e o sr. Paulo Portas ficam com inteira liberdade para estabelecer um regime que os contente e orgulhe, à revelia do país. Não se percebe também a oposição e, nomeadamente, o PS. Mais tarde ou mais cedo, o PS acabará por governar com o Estado que herdar do sr. Coelho e do sr. Portas. Descobrirá, nessa altura, o sarilho em que se meteu ou para que foi empurrado. Infelizmente não ocorre à cabeça de nenhum privilegiado cacique daquela tribo que o chamado "guião" desça do Conselho de Ministros (que hoje, aliás, mostra um especial amor ao briefing) à discussão na Assembleia da República. Falando muito sobre irrelevâncias, nunca o PS se digna ir direito ao ponto. Espera com certeza afastar com um gesto majestático o Estado que eventualmente lhe cair nas mãos, no mesmo segredo que se usa agora. Também ele não gosta, nem pratica a tal democracia em cujo nome discursa na televisão e nos comícios.»


 


Vasco Pulido Valente, Público

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