4.8.13

A bacia, a toalha e o sabão


 


Por coincidência, dois amigos, o Carlos Vargas e o Eduardo Cintra Torres, recomendaram-me a releitura do livrinho da foto. Parece que ambos o fizeram recentemente. Na verdade, este pequeno texto ironista de Alberto Pimenta, de 1977 - "maldito" na acepção sociológica deste outro livro -, é mais para pensar do que para sorrir. «O filho-da-puta que apenas finge que não deixa fazer tem também a seu lado, sempre, uma grande bacia para lavar as mãos. Está sempre a lavar as mãos, e essa é a sua real actividade e é por isso que, ocupado como está em lavar as mãos e portanto sempre de costas, não vê o que se supõe que devia ver e. ao mesmo tempo, tem as mãos sempre limpas e humedecidas. Claro que este filho-da-puta não trabalha sozinho: tem sempre quem lhe chegue a toalha e o sabão, enquanto alguém lhe derrama a água morna nos dedos, e outrem ainda lhe canta ao ouvido grandes toadas, que ele escuta sempre com delicada condescendência. Assim correm e deslizam os rodízios no mundo dos filhos-da-puta; e como são tantos e ocupam tantos lugares, alguns deles até se podem permitir fingir que o não são, pois acima ou abaixo, à direita ou à esquerda, em casa ou na escola, atrás da janela ou da porta, ou, noutro lugar qualquer, há sempre um filho-da-puta que, fazendo ou não deixando fazer, ou fingindo que faz ou que deixa fazer, ou que não faz ou que não deixa fazer, se encarrega de que nesse mundo não haja nunca deslizes no correr e deslizar dos seus rodízios.»

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