25.8.13

A mer(d)itocracia

Um pequeno texto notável, que li, sozinho ao almoço, de Rita Pimenta no suplemento 2 do Público de domingo, e que remete para um "tipo" de sociedade onde cada vez menos me interessa viver. Uma sociedade que, afinal, nem é para velhos nem é para novos, a da "mer(d)itocracia", uma espécie de terra de ninguém prometida aos "espertos" nem que seja como reserva de talhão para a meritória sepultura.


 


«O "desejo profundo de concretizar alguma coisa". Esta é uma das definições inocentes da palavra "ambição", a que equivalem "aspiração", "pretensão" e "sonho". Há dicionários que lhe atribuem uma carga mais "pecaminosa", como "desejo veemente de riqueza, honras ou glórias" e "desejo ardente de poder, fortuna, sucesso". São os mesmos que escolhem os sinónimos "cobiça" e "avidez". Para clarificar a ideia, registam: "A ambição levou-o a cometer algumas loucuras." Pensamento semelhante terá ocorrido a quem tomou conhecimento do que aconteceu a Moritz Erhardt, o estagiário alemão do Bank of America, de 21 anos, que foi encontrado morto na casa de banho da residência onde vivia em Londres, a 15 de Agosto. Por "ambição" e/ou por "exploração", terá trabalhado 72 horas seguidas. "Exploração" significa "abuso de boa-fé de outrem para auferir benefícios". A dúvida sobre o peso de cada um dos substantivos ("ambição"/"exploração") no destino do jovem será difícil de esclarecer. Noticiário no PÚBLICO: "Afirmava ser "altamente competitivo e de natureza ambiciosa" (...). A organização britânica Finance Interns utiliza a palavra "escravatura" para descrever a forma como os jovens são tratados quando entram em algumas empresas do mundo financeiro. "O bem-sucedido Zeinal Bava, que se tornou CEO da PT em 2008 (na altura, o presidente executivo mais jovem dos operadores históricos europeus), dizia nas reuniões: "Não pedimos desculpas por ter ambição, pedimos desculpas quando falhamos." Lamentavelmente, Moritz Erhardt já não corre o risco de falhar.»

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