
Há um mês grassava pelo "meio" o alvoroço provocado pela comunicação ao país do Senhor Presidente da República que apenas adiou por uns dias a entrada em vigor do "acordo do Tivoli". Depois de uns barulhos circunstanciais e de umas histórias pouco edificantes que a seu tempo se contarão, vivemos habitualmente neste doce país que é Portugal. São duas expressões caras ao Doutor Salazar que, ao contrário dos néscios de hoje, conhecia perfeitamente a raça que pastoreava. E neste doce país que é Portugal, com quase três mil famílias declaradas insolventes pelos tribunais, por exemplo, a taxa de ocupação hoteleira no Algarve ultrapassa os 80%, o FCP começou já por ganhar uma coisa chamada "supertaça", os telejornais só falam da bola e das indisposições de Mourinho com Ronaldo, dos restaurantes vazios que produzem "petiscos" e das vastas ignições florestais que martirizam quase sempre os mesmos nos mesmos lugares de solidão e abandono. Finalmente não será o extraordinário dr. Lima quem vai "salvar" a economia portuguesa mas antes os call centers: "é melhor do que a Índia ou o Norte de África, consideram as grandes multinacionais". O mesmo doce país ignora entretanto, e com inteira justeza, as eleições autárquicas que se avizinham e onde a pantomimice abunda. A abstenção, espera-se, será devastadora bem como os votos em branco. Os cartões serão invarialvelmente vermelhos e laranja para todos, quase sem excepões. Marcelo fala habitualmente logo à noite sem nada para dizer por entre as gargalhadinhas nervosas da dra. Judite. Devia seguir o exemplo do seu assistente académico Pedro Lomba e tirar umas merecidas férias. Nunca tive muita pachorra para o romancista Urbano Tavares Rodrigues. Para dizer nenhuma. Todavia aprecio o "seu" Teixeira-Gomes a que aludi algumas vezes aqui. Ontem, no meio deste lixo todo, comoveu-me o curto prefácio que Urbano escreveu para o último livro. «Daqui me vou despedindo, pouco a pouco, lutando com a minha angústia e vencendo-a, dizendo um maravilhado adeus à água fresca do mar e dos rios onde nadei, ao perfume das flores e das crianças, e à beleza das mulheres. Um cravo vermelho e a bandeira do meu Partido hão-de acompanhar-me e tudo será luz.» Parece impossível mas houve, neste doce país que é Portugal, pessoas assim. Tudo, de facto e algum dia, será luz?
3 comentários:
Provavelmente um dos melhores (e mais devastador) post dos últimos tempos. Nos jornais leio que "algumas dezenas de pessoas" estiveram no funeral do escritor onde Manuel Alegre estreou um poema e que outra dezena esteve nos protestos da EN125 .
Amanhã vai estar outro dia de bom calor.
Sejamos felizes, até dar.
Também há sinais encorajadores graças em muito ao trabalho do nosso Álvaro:
«O desemprego voltou a cair pelo segundo mês consecutivo. O índice de produção industrial está a crescer. O índice de confiança dos consumidores também está a subir e, em consequência, a sangria no comércio a retalho está a estancar. Portugal foi o país da OCDE onde a produtividade mais subiu. O consumo de combustíveis aumentou pela primeira vez em dois anos. As poupanças dos portugueses continuam a aumentar e o vício do crédito continua a descer: o endividamento das famílias portuguesas baixou 9 mil milhões desde 2011. E, acima de tudo, o défice externo já foi destruído. Pela primeira vez desde pelo menos 1995, atingimos um excedente comercial positivo devido à queda das importações de bens de consumo e devido à explosão das exportações. O excedente positivo deve ser de 4,5% do PIB no final deste ano e de 6,4% no próximo ano.»
É preciso insistir neles-sinais.
"serei sempre o homem da mansarda", o que faz metafísica observando os Esteves,o talassa sem partido,o que pede sonhos "até que nasça qualquer dia que TU sabes qual é".Porque razão que se perceba não há-de esta história ser mais verdadeira que outra qualquer?
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