30.9.04

UMA CENOURA ...

....é a "tolerância de ponto", vulgo "ponte", dada aos mal-amados funcionários públicos na próxima segunda-feira. Deve ser a primeira "cenoura" de muitas. Para além do mais dá jeito. Os professores da "lista" também são funcionários públicos.

UMA CENOURA ...

....é a "tolerância de ponto", vulgo "ponte", dada aos mal-amados funcionários públicos na próxima segunda-feira. Deve ser a primeira "cenoura" de muitas. Para além do mais dá jeito. Os professores da "lista" também são funcionários públicos.

CARMO SEABRA É DA FENPROF?

Teria valido a pena alguém do governo, ou dos partidos que o apoiam, ter perdido cinco minutos a explicar a Carmo Seabra o que é que significa desempenhar uma função política em democracia. A pesporrência e a sobranceria com que aparece em público só reforçam a imagem cada vez mais nítida de um clamoroso erro de casting. Carmo Seabra não só não sabe livrar-se dos sarilhos, como revela uma inexcedível capacidade para os atrair. Os últimos desenvolvimentos nas listas de colocação dos professores provam-no à saciedade. Como se não bastassem os antecedentes, a ministra garantiu que agora estava tudo no sítio certo. Em menos de 24 horas, percebeu-se que pouca coisa estava no sítio certo, a começar por ela. A sua insegurança e a sua fragilidade limitam-se a dar corda aos sindicatos que perversamente esmiuçam qualquer anomalia, transformando-a num verdadeiro caos. O que é grave é a circunstância de as anomalias serem a regra e o método. A ministra, aliás, comporta-se como uma extraordinária organizadora do caos. Com o ar de quem anda às compras na feira de Carcavelos, Carmo Seabra diz que tira "consequências políticas" disto, designadamente uma, e passo a citar: "dá muito trabalho ser ministra da Educação". Quanto ao resto, "não me apetece responder" (sic). Será que Carmo Seabra, afinal, é um "submarino" da FENPROF?.

CARMO SEABRA É DA FENPROF?

Teria valido a pena alguém do governo, ou dos partidos que o apoiam, ter perdido cinco minutos a explicar a Carmo Seabra o que é que significa desempenhar uma função política em democracia. A pesporrência e a sobranceria com que aparece em público só reforçam a imagem cada vez mais nítida de um clamoroso erro de casting. Carmo Seabra não só não sabe livrar-se dos sarilhos, como revela uma inexcedível capacidade para os atrair. Os últimos desenvolvimentos nas listas de colocação dos professores provam-no à saciedade. Como se não bastassem os antecedentes, a ministra garantiu que agora estava tudo no sítio certo. Em menos de 24 horas, percebeu-se que pouca coisa estava no sítio certo, a começar por ela. A sua insegurança e a sua fragilidade limitam-se a dar corda aos sindicatos que perversamente esmiuçam qualquer anomalia, transformando-a num verdadeiro caos. O que é grave é a circunstância de as anomalias serem a regra e o método. A ministra, aliás, comporta-se como uma extraordinária organizadora do caos. Com o ar de quem anda às compras na feira de Carcavelos, Carmo Seabra diz que tira "consequências políticas" disto, designadamente uma, e passo a citar: "dá muito trabalho ser ministra da Educação". Quanto ao resto, "não me apetece responder" (sic). Será que Carmo Seabra, afinal, é um "submarino" da FENPROF?.

LER





Não propriamente para fugir à modorra, já que se trata de um grande escritor - desculpem-me os puristas da paróquia -, recomendo a leitura do último John Le Carré, Absolute Friends, e a releitura de The Honourable Schoolboy, porventura a sua opus maior. No meio de tanta indigência doméstica, a prosa de Le Carré é um bálsamo recorrente, mesmo ou sobretudo a "mais antiga".

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Não propriamente para fugir à modorra, já que se trata de um grande escritor - desculpem-me os puristas da paróquia -, recomendo a leitura do último John Le Carré, Absolute Friends, e a releitura de The Honourable Schoolboy, porventura a sua opus maior. No meio de tanta indigência doméstica, a prosa de Le Carré é um bálsamo recorrente, mesmo ou sobretudo a "mais antiga".

29.9.04

FAHRENHEIT 150

O Dr. Portas teve outro dia novo grande momento de glória. Para além dos pescadores, dos pensionistas, dos reformados e dos vendedores de mercados, o PP também apostou fortemente nos ex-combatentes. Ao ponto de conseguir uma secretaria de Estado com esta designação, embora ocupada por pequenos lugares-tenentes do PSD. Porém, quando toca a dar, nem que seja um balão, é Portas quem sempre e só aparece. Aliás, os ministros PP especializaram-se na "técnica do balão popular". Consiste em encher de ar de anúncios, promessas e "medidas" a imaginação sempre carente do cidadão distraído e do jornalista "massagista". Uma imagem nas televisões e duas ou três colunas laudatórias num jornal fazem o resto. Como qualquer "balão", chega uma hora em que ele naturalmente se esvazia. Para os nossos animados ministros "populares", isso não tem qualquer importância. O gesto foi e é há-de ser sempre tudo. Justamente os ex-combatentes tiveram agora, ou vão ter, o seu "direito ao balão". Por 150 euros anuais, cerca de dois contos e quinhentos por mês, Portas acha que já pagou bem a dignidade destes homens bem como a sua "promessa". O populismo não mata, mas engorda-se. E Portas, afinal, também tem direito ao seu "Fahrenheit 150".

FAHRENHEIT 150

O Dr. Portas teve outro dia novo grande momento de glória. Para além dos pescadores, dos pensionistas, dos reformados e dos vendedores de mercados, o PP também apostou fortemente nos ex-combatentes. Ao ponto de conseguir uma secretaria de Estado com esta designação, embora ocupada por pequenos lugares-tenentes do PSD. Porém, quando toca a dar, nem que seja um balão, é Portas quem sempre e só aparece. Aliás, os ministros PP especializaram-se na "técnica do balão popular". Consiste em encher de ar de anúncios, promessas e "medidas" a imaginação sempre carente do cidadão distraído e do jornalista "massagista". Uma imagem nas televisões e duas ou três colunas laudatórias num jornal fazem o resto. Como qualquer "balão", chega uma hora em que ele naturalmente se esvazia. Para os nossos animados ministros "populares", isso não tem qualquer importância. O gesto foi e é há-de ser sempre tudo. Justamente os ex-combatentes tiveram agora, ou vão ter, o seu "direito ao balão". Por 150 euros anuais, cerca de dois contos e quinhentos por mês, Portas acha que já pagou bem a dignidade destes homens bem como a sua "promessa". O populismo não mata, mas engorda-se. E Portas, afinal, também tem direito ao seu "Fahrenheit 150".

28.9.04

O ASSALTO II

O governo vai aparentemente baixar em cerca de 30% as remunerações do pessoal hospitalar afecto aos "Hospitais SA". Com uma cajadada, mata dois coelhos. Passam a ser celebrados contratos individuais de trabalho em vez do tradicional vínculo à função pública. Entre outras coisas, isto facilita tanto os despedimentos como as contratações. O que é uma vantagem para os "privados" a quem, na realidade, se destina a "experiência" do Dr. Pereira. Já podem negociar no famoso "mercado" o preço de um médico entretanto sonegado ao serviço público de saúde. Por sinal aquele que é pago directamente pelos contribuintes. Com este generoso governo, quem é que não vai querer ser "privado" quando for grande?

O ASSALTO II

O governo vai aparentemente baixar em cerca de 30% as remunerações do pessoal hospitalar afecto aos "Hospitais SA". Com uma cajadada, mata dois coelhos. Passam a ser celebrados contratos individuais de trabalho em vez do tradicional vínculo à função pública. Entre outras coisas, isto facilita tanto os despedimentos como as contratações. O que é uma vantagem para os "privados" a quem, na realidade, se destina a "experiência" do Dr. Pereira. Já podem negociar no famoso "mercado" o preço de um médico entretanto sonegado ao serviço público de saúde. Por sinal aquele que é pago directamente pelos contribuintes. Com este generoso governo, quem é que não vai querer ser "privado" quando for grande?

A VIDA MATERIAL

Por razões profissionais, estive numa repartição de finanças de Lisboa. A actual sofisticação terminológica de "serviço de finanças" não mudou em nada a substância do exercício. É vulgar "dizer mal" das "finanças" já que a menção lembra invariavelmente "imposto". Acontece que também é importante, de vez em quando, ver o "outro lado". Este "serviço de finanças" que visitei é o mais "pesado" de Lisboa. Situa-se em Alvalade, numa rua ironicamente chamada "do Centro Cultural". Dizem-me que se trata de um arrendamento de um edifício que pertenceu ao Montepio Geral e que custa cerca de vinte e cinco mil euros mensais aos pagadores de impostos. Visto de fora, até não parece mau. Uma vez lá dentro, percebe-se que aquilo podia ser tudo menos um local de trabalho e um serviço de atendimento ao público. Com três andares, a estrutura tem os tectos rebaixados e falsos - talvez por se pensar que o "contribuinte médio" e o "funcionário público" são mesmo médios de altura - e constitui uma perversa fornalha. Os funcionários explicaram-me que, de inverno, usam roupas de verão porque a temperatura ambiente é naturalmente quente. O ar condicionado é uma metáfora inútil enfiada nas paredes e no chão, dado que não funciona. Os aparelhos colocados junto das janelas mal dão para arrefecer a água que tem que ser consumida aos litros pelos funcionários. O ar é praticamente irrespirável. Pedi para ver o "livro das reclamações". A falta de condições é tão evidente que o "cliente"/contribuinte prefere denunciar as "condições de trabalho" primitivas dos funcionários que os atendem da maneira que podem. Só um "sentido de serviço" arrancado não sei bem a que profundezas das almas daquelas criaturas permite aguentar tamanho opróbrio. Sinceramente, é possível continuar com as bravatas demagógicas da "produtividade", da "melhoria de desempenho" e dos "indicadores" quando não se consegue instalar decentemente umas dezenas de pessoas nos respectivos postos de trabalho? Para quê continuar a acenar aos distraídos e aos ingénuos com a "reforma do Estado" se, numa coisa simples como ter um lugar equilibrado para trabalhar e atender gente, quase se sufoca todo o santo ano, ao ponto dos de fora lamentarem os de dentro? Isto é que é "modernizar a administração pública ao serviço dos cidadãos"? Ou os "cidadãos" que servem na administração pública são menos "cidadãos"? Este episódio da vida material é apenas mais um retrato da mesma miséria e da velha falácia. A única diferença é que agora lhe chamam "tempo novo".

A VIDA MATERIAL

Por razões profissionais, estive numa repartição de finanças de Lisboa. A actual sofisticação terminológica de "serviço de finanças" não mudou em nada a substância do exercício. É vulgar "dizer mal" das "finanças" já que a menção lembra invariavelmente "imposto". Acontece que também é importante, de vez em quando, ver o "outro lado". Este "serviço de finanças" que visitei é o mais "pesado" de Lisboa. Situa-se em Alvalade, numa rua ironicamente chamada "do Centro Cultural". Dizem-me que se trata de um arrendamento de um edifício que pertenceu ao Montepio Geral e que custa cerca de vinte e cinco mil euros mensais aos pagadores de impostos. Visto de fora, até não parece mau. Uma vez lá dentro, percebe-se que aquilo podia ser tudo menos um local de trabalho e um serviço de atendimento ao público. Com três andares, a estrutura tem os tectos rebaixados e falsos - talvez por se pensar que o "contribuinte médio" e o "funcionário público" são mesmo médios de altura - e constitui uma perversa fornalha. Os funcionários explicaram-me que, de inverno, usam roupas de verão porque a temperatura ambiente é naturalmente quente. O ar condicionado é uma metáfora inútil enfiada nas paredes e no chão, dado que não funciona. Os aparelhos colocados junto das janelas mal dão para arrefecer a água que tem que ser consumida aos litros pelos funcionários. O ar é praticamente irrespirável. Pedi para ver o "livro das reclamações". A falta de condições é tão evidente que o "cliente"/contribuinte prefere denunciar as "condições de trabalho" primitivas dos funcionários que os atendem da maneira que podem. Só um "sentido de serviço" arrancado não sei bem a que profundezas das almas daquelas criaturas permite aguentar tamanho opróbrio. Sinceramente, é possível continuar com as bravatas demagógicas da "produtividade", da "melhoria de desempenho" e dos "indicadores" quando não se consegue instalar decentemente umas dezenas de pessoas nos respectivos postos de trabalho? Para quê continuar a acenar aos distraídos e aos ingénuos com a "reforma do Estado" se, numa coisa simples como ter um lugar equilibrado para trabalhar e atender gente, quase se sufoca todo o santo ano, ao ponto dos de fora lamentarem os de dentro? Isto é que é "modernizar a administração pública ao serviço dos cidadãos"? Ou os "cidadãos" que servem na administração pública são menos "cidadãos"? Este episódio da vida material é apenas mais um retrato da mesma miséria e da velha falácia. A única diferença é que agora lhe chamam "tempo novo".

27.9.04

A CARAVANA

Ao horror do crime sucede o horror da novela mediática. A eleição do secretário-geral do PS passa nos intervalos das poças de sangue. O vampirismo da massa ignara junta-se ao arrivismo das reportagens repetidas à náusea. Esta exploração da nossa profunda miséria instintual e cultural, aliada à económica, equivale à indigência dos ambientes em que o crime tem lugar. É, aliás, uma subtil manobra de propaganda e uma forma assaz retorcida de "fazer política". O primarismo gosta de se ver e de ser visto na televisão. Enquanto os cães ladram, a caravana passa.

A CARAVANA

Ao horror do crime sucede o horror da novela mediática. A eleição do secretário-geral do PS passa nos intervalos das poças de sangue. O vampirismo da massa ignara junta-se ao arrivismo das reportagens repetidas à náusea. Esta exploração da nossa profunda miséria instintual e cultural, aliada à económica, equivale à indigência dos ambientes em que o crime tem lugar. É, aliás, uma subtil manobra de propaganda e uma forma assaz retorcida de "fazer política". O primarismo gosta de se ver e de ser visto na televisão. Enquanto os cães ladram, a caravana passa.

26.9.04

PORTAS BAIXAS

Num post intitulado "Jornalismo de recados", no Abrupto, José Pacheco Pereira volta ao problema da "mensagem" vs. "massagem" que tantas vezes se confunde nas pobres cabeças de alguns pobres jornalistas vulneráveis a "recados" e a "centrais". Fá-lo a propósito das recentes intervenções, nos jornais, do anterior ministro da Educação, David Justino. É bonito defender-se os amigos e JPP é amigo de Justino. Acontece que Justino se defendeu da pior das maneiras de uma trapalhada iniciada sob sua inteira responsabilidade política. Mesmo que fosse por maldade ou encomenda, o título escolhido para a entrevista ao Expresso é elucidativo do propósito: "não gostaria de estar na pele da ministra". Será que é moda política chutar ao lado, para cima e para baixo, fazendo de conta que só se está no governo para ver passar os comboios? À semelhança dos "contadores de histórias" visados no texto de JPP, também David Justino, que já tinha saído pela "porta baixa", com este tipo de comentários, arrisca-se a ser companhia dos outros na "baixíssima".

PORTAS BAIXAS

Num post intitulado "Jornalismo de recados", no Abrupto, José Pacheco Pereira volta ao problema da "mensagem" vs. "massagem" que tantas vezes se confunde nas pobres cabeças de alguns pobres jornalistas vulneráveis a "recados" e a "centrais". Fá-lo a propósito das recentes intervenções, nos jornais, do anterior ministro da Educação, David Justino. É bonito defender-se os amigos e JPP é amigo de Justino. Acontece que Justino se defendeu da pior das maneiras de uma trapalhada iniciada sob sua inteira responsabilidade política. Mesmo que fosse por maldade ou encomenda, o título escolhido para a entrevista ao Expresso é elucidativo do propósito: "não gostaria de estar na pele da ministra". Será que é moda política chutar ao lado, para cima e para baixo, fazendo de conta que só se está no governo para ver passar os comboios? À semelhança dos "contadores de histórias" visados no texto de JPP, também David Justino, que já tinha saído pela "porta baixa", com este tipo de comentários, arrisca-se a ser companhia dos outros na "baixíssima".

SÃO CARLOS: O IMPASSE

Li no Crítico que o governo se preparava para "cortar" substancialmente o orçamento do Teatro Nacional de São Carlos, prejudicando essencialmente a afectação destinada às produções. Se isto corresponder à realidade, significa que a actual tutela sediada na Ajuda continua a inverter as prioridades. O Teatro tem funcionado nos últimos anos numa ilógica e irrealista "fuga para a frente", acumulando deficiências organizativas e de gestão que vão sendo convenientemente varridas para debaixo do tapete para que a "função" possa ter lugar. Quem percebe o Teatro sabe que, por detrás da fachada e do palco, se esconde uma instituição autofágica que não conhece verdadeiramente um rumo. Nada disto seria grave se não fossem os dinheiros públicos a sustentar tamanha bizarria. Para o ano, se não erro, termina a vigência do protocolo de mecenato com o BCP, que deverá pensar duas vezes antes de o renovar. A última tentativa séria para resolver o "problema São Carlos" foi protagonizada por Manuel Maria Carrilho. Acabou com a inútil e sôfrega Fundação de São Carlos, saneou financeiramente a instituição e dotou-a com uma lei orgânica suficientemente flexível para governar a casa. O que se seguiu, limitou-se a empurrar um pouco mais o Teatro para o inverosímil. E com Pedro Roseta e Amaral Lopes, o irrealismo tomou definitivamente conta do Teatro. Pinamonti, o director, já devia ter percebido que o tempo de ir à Praça do Comércio e vir de lá com mais umas centenas de milhares de euros, acabou definitivamente há três anos. Por outro lado, a tenaz do ministério das finanças, sem critério que diferencie os organismos de produção cultural e virada apenas para um segmento da despesa, consentindo o seu aumento justamente onde ela não devia aumentar, também não leva a nenhum lado. Curiosamente não vejo ninguém questionar a irracionalidade da "política" e das despesas de pessoal, quando se sabe que quem paga essa factura é a "produção artística" e o público, afinal aquilo que justifica que o palco se abra. Ignoro se Maria João Bustorff e Teresa Caeiro possuem "um pensamento" acerca do nosso único teatro de ópera. A pura técnica contabilística já não chega e sobretudo não serve quando é mal direccionada. Eu continuo a pensar que o encerramento provisório do Teatro, para o reformular de alto a baixo, seria a solução menos má. Tudo o mais são expedientes que mantêm convenientemente o impasse.
Adenda: Depois de escrito este post, verifico que o Augusto M. Seabra também se lembrou do São Carlos no seu artigo de hoje no Público.

SÃO CARLOS: O IMPASSE

Li no Crítico que o governo se preparava para "cortar" substancialmente o orçamento do Teatro Nacional de São Carlos, prejudicando essencialmente a afectação destinada às produções. Se isto corresponder à realidade, significa que a actual tutela sediada na Ajuda continua a inverter as prioridades. O Teatro tem funcionado nos últimos anos numa ilógica e irrealista "fuga para a frente", acumulando deficiências organizativas e de gestão que vão sendo convenientemente varridas para debaixo do tapete para que a "função" possa ter lugar. Quem percebe o Teatro sabe que, por detrás da fachada e do palco, se esconde uma instituição autofágica que não conhece verdadeiramente um rumo. Nada disto seria grave se não fossem os dinheiros públicos a sustentar tamanha bizarria. Para o ano, se não erro, termina a vigência do protocolo de mecenato com o BCP, que deverá pensar duas vezes antes de o renovar. A última tentativa séria para resolver o "problema São Carlos" foi protagonizada por Manuel Maria Carrilho. Acabou com a inútil e sôfrega Fundação de São Carlos, saneou financeiramente a instituição e dotou-a com uma lei orgânica suficientemente flexível para governar a casa. O que se seguiu, limitou-se a empurrar um pouco mais o Teatro para o inverosímil. E com Pedro Roseta e Amaral Lopes, o irrealismo tomou definitivamente conta do Teatro. Pinamonti, o director, já devia ter percebido que o tempo de ir à Praça do Comércio e vir de lá com mais umas centenas de milhares de euros, acabou definitivamente há três anos. Por outro lado, a tenaz do ministério das finanças, sem critério que diferencie os organismos de produção cultural e virada apenas para um segmento da despesa, consentindo o seu aumento justamente onde ela não devia aumentar, também não leva a nenhum lado. Curiosamente não vejo ninguém questionar a irracionalidade da "política" e das despesas de pessoal, quando se sabe que quem paga essa factura é a "produção artística" e o público, afinal aquilo que justifica que o palco se abra. Ignoro se Maria João Bustorff e Teresa Caeiro possuem "um pensamento" acerca do nosso único teatro de ópera. A pura técnica contabilística já não chega e sobretudo não serve quando é mal direccionada. Eu continuo a pensar que o encerramento provisório do Teatro, para o reformular de alto a baixo, seria a solução menos má. Tudo o mais são expedientes que mantêm convenientemente o impasse.
Adenda: Depois de escrito este post, verifico que o Augusto M. Seabra também se lembrou do São Carlos no seu artigo de hoje no Público.

FRANÇOISE SAGAN




Desapareceu na passada sexta-feira a escritora Françoise Sagan. A sua abrupta erupção nas letras francesas fez-se em 1954, aos 19 anos, com o livro "Bom Dia Tristeza". O artigo "A elegância, o humor e a leveza", de Josyane Savigneau, a conhecida biógrafa de Marguerite Yourcenar, é uma bonita homenagem que o Le Monde presta a Sagan.

FRANÇOISE SAGAN




Desapareceu na passada sexta-feira a escritora Françoise Sagan. A sua abrupta erupção nas letras francesas fez-se em 1954, aos 19 anos, com o livro "Bom Dia Tristeza". O artigo "A elegância, o humor e a leveza", de Josyane Savigneau, a conhecida biógrafa de Marguerite Yourcenar, é uma bonita homenagem que o Le Monde presta a Sagan.

25.9.04

O LUGAR DO MORTO

Santana Lopes também quer o seu "fortezinho" na linha de Cascais para o "lazer" e para os "fins de semana". Segundo o Expresso, foi bem explícito na discriminação das respectivas comodidades. Parece que lhe vai calhar o Forte de Santo António onde Salazar passava os verões pagando do seu bolso ao Exército. Não consigo imaginar quantas voltas dará na sua campa rasa do Vimieiro. Foi lá que se estatelou na famosa cadeira. Lopes, pelo contrário, não precisa de nenhuma cadeira de lona para se estatelar. Basta-lhe abrir a boca e jorrar a primeira ideia que lhe vier à cabeça.

O LUGAR DO MORTO

Santana Lopes também quer o seu "fortezinho" na linha de Cascais para o "lazer" e para os "fins de semana". Segundo o Expresso, foi bem explícito na discriminação das respectivas comodidades. Parece que lhe vai calhar o Forte de Santo António onde Salazar passava os verões pagando do seu bolso ao Exército. Não consigo imaginar quantas voltas dará na sua campa rasa do Vimieiro. Foi lá que se estatelou na famosa cadeira. Lopes, pelo contrário, não precisa de nenhuma cadeira de lona para se estatelar. Basta-lhe abrir a boca e jorrar a primeira ideia que lhe vier à cabeça.

O NOME DA ROSA





Como vários "observadores" e "comentadores" salientaram, o debate provocado pela campanha pela liderança do PS foi útil ao partido e ao país. Se tomarmos por referência a última consulta popular, as eleições europeias, o PS não perdeu o seu glamour e é esperável que estas movimentações o tenham espevitado um pouco mais. "Tudo isto que nos rodeia" a partir da maioria e do governo é tão mau e tão penoso de suportar que o PS pode bruscamente voltar a ser importante. Apesar do meu cepticismo militante e permanente, agora partidariamente "independente", reconheço que o que vai ter de se seguir a esta calamidade passará necessariamente pelo Partido Socialista. O PSD, enquanto insistir na aliança espúria com o PP, reforçando a componente "PPD" e o jargão "neoliberal", não interessa ao glorioso "povo do centro", o tal que dá vitórias e derrotas. A "política democrática" que eu persigo e que expliquei no início deste blogue, por referência ao filósofo Richard Rorty, não se revê na actual perturbação a que alguns chamam "governo". E também não aceita a liderança "ideológica" exercida a partir da maioria por um pequeno partido populista com uma legitimidade eleitoral inexpressiva. É sintomático que, na única vez em que a "coligação" se submeteu a votos, tenha perdido. E os "estudos de opinião", seja para o que for, estabilizam essa tendência constantemente perdedora em que o mais penalizado, a médio prazo, acaba por ser o PSD. Dito isto, falta dar um nome à rosa. Os militantes socialistas escolhem, entre ontem e hoje, o seu secretário-geral e, por consequência, um candidato a chefe do governo. Sem sofismas, eu espero que esse candidato seja José Sócrates. Não é perfeito, não é um "purista" e não é sobretudo um ingénuo, graças a Deus. Em certo sentido, o debate interno também o "melhorou" e obrigou-o a perder o carácter "instantâneo" inicial. Não estamos em tempos de reclamar génios ou esmagadoras figuras. Já não se fabricam. Se eu pudesse escolher abstractamente, tipo "três em um", seleccionava a voz de Manuel Alegre, o voluntarismo de João Soares e o pragmatismo frio de José Sócrates. Em concreto, fico-me pelo último.


P.S: Gostava que esse pragmatismo não desviasse Sócrates do essencial. Por exemplo, Manuel Maria Carrilho deve continuar a ser uma séria hipótese vencedora para a Câmara Municipal de Lisboa. Outros putativos candidatos estão muito bem nos postos para que foram eleitos.

O NOME DA ROSA





Como vários "observadores" e "comentadores" salientaram, o debate provocado pela campanha pela liderança do PS foi útil ao partido e ao país. Se tomarmos por referência a última consulta popular, as eleições europeias, o PS não perdeu o seu glamour e é esperável que estas movimentações o tenham espevitado um pouco mais. "Tudo isto que nos rodeia" a partir da maioria e do governo é tão mau e tão penoso de suportar que o PS pode bruscamente voltar a ser importante. Apesar do meu cepticismo militante e permanente, agora partidariamente "independente", reconheço que o que vai ter de se seguir a esta calamidade passará necessariamente pelo Partido Socialista. O PSD, enquanto insistir na aliança espúria com o PP, reforçando a componente "PPD" e o jargão "neoliberal", não interessa ao glorioso "povo do centro", o tal que dá vitórias e derrotas. A "política democrática" que eu persigo e que expliquei no início deste blogue, por referência ao filósofo Richard Rorty, não se revê na actual perturbação a que alguns chamam "governo". E também não aceita a liderança "ideológica" exercida a partir da maioria por um pequeno partido populista com uma legitimidade eleitoral inexpressiva. É sintomático que, na única vez em que a "coligação" se submeteu a votos, tenha perdido. E os "estudos de opinião", seja para o que for, estabilizam essa tendência constantemente perdedora em que o mais penalizado, a médio prazo, acaba por ser o PSD. Dito isto, falta dar um nome à rosa. Os militantes socialistas escolhem, entre ontem e hoje, o seu secretário-geral e, por consequência, um candidato a chefe do governo. Sem sofismas, eu espero que esse candidato seja José Sócrates. Não é perfeito, não é um "purista" e não é sobretudo um ingénuo, graças a Deus. Em certo sentido, o debate interno também o "melhorou" e obrigou-o a perder o carácter "instantâneo" inicial. Não estamos em tempos de reclamar génios ou esmagadoras figuras. Já não se fabricam. Se eu pudesse escolher abstractamente, tipo "três em um", seleccionava a voz de Manuel Alegre, o voluntarismo de João Soares e o pragmatismo frio de José Sócrates. Em concreto, fico-me pelo último.


P.S: Gostava que esse pragmatismo não desviasse Sócrates do essencial. Por exemplo, Manuel Maria Carrilho deve continuar a ser uma séria hipótese vencedora para a Câmara Municipal de Lisboa. Outros putativos candidatos estão muito bem nos postos para que foram eleitos.

24.9.04

O ASSALTO

Lá mais para trás tentei apreciar o propósito dos famigerados "hospitais SA". O meu amigo Zé António (Mendes Ribeiro), o criador de tão elevada empresa, trocou a dada altura o ministério da saúde por um grupo financeiro privado, sem respeitar um período de nojo. Amigos, amigos, negócios à parte. Mendes Ribeiro preparou no Estado, e por conta do Estado, um "prato pronto-a-servir" aos "privados", um dos quais ele presentemente representa. Sabe-se agora a que vêm esse grupo e outros. O assalto já começou.

O ASSALTO

Lá mais para trás tentei apreciar o propósito dos famigerados "hospitais SA". O meu amigo Zé António (Mendes Ribeiro), o criador de tão elevada empresa, trocou a dada altura o ministério da saúde por um grupo financeiro privado, sem respeitar um período de nojo. Amigos, amigos, negócios à parte. Mendes Ribeiro preparou no Estado, e por conta do Estado, um "prato pronto-a-servir" aos "privados", um dos quais ele presentemente representa. Sabe-se agora a que vêm esse grupo e outros. O assalto já começou.

À PROCURA DE UM AUTOR

Não sei quantos ministros e um primeiro-ministro fizeram hoje uma apresentação de luxo da "nova lei do arrendamento". Pergunto-me o que é que os mais desvalidos ou preocupados inquilinos e proprietários terão pensado ou aprendido com tamanha manobra de propaganda provinciana. Estava ali, naquele hotel, a essência deste governo: um desiquilibrado conjunto de enfatuados à procura de um autor.

À PROCURA DE UM AUTOR

Não sei quantos ministros e um primeiro-ministro fizeram hoje uma apresentação de luxo da "nova lei do arrendamento". Pergunto-me o que é que os mais desvalidos ou preocupados inquilinos e proprietários terão pensado ou aprendido com tamanha manobra de propaganda provinciana. Estava ali, naquele hotel, a essência deste governo: um desiquilibrado conjunto de enfatuados à procura de um autor.

O PANTEÃO NACIONAL




A "democracia portuguesa" sabe honrar os seus maiores servidores. A Dra. Celeste Cardona, alguém que no eixo Lisboa-Burundi é seguramente reconhecida como um génio da política de justiça, viu os seus vastos méritos amplamente recompensados no púlpito da Caixa Geral de Depósitos. Esta veneranda instituição financeira que em condições normais não passaria honradamente disso mesmo, tem visto a dita "democracia" ornamentá-la com alguns dos seus ex-dedicados serventuários políticos. Pode até afirmar-se que o recorrente "arco constitucional democrático" se sublima simbolicamente na CGD. Só faltava o PP, uma injustiça em boa hora reparada por esta maioria, através da fantástica Dra. Cardona. À semelhança da CGD, outras instituições com idêntica filiação pública, acolhem no seu seio estes ex-mártires da sua causa, a supostamente "pública". E nós todos, agradecidos, limitamo-nos silenciosamente a pagar. Pelos exemplos, dir-se-ia que, afinal, a "classe política" vale mais pela sua vida póstuma do que pela que leva no "activo". Deste modo a "democracia portuguesa", propriedade exclusiva do "arco" partidário agora alargado ao PP, tem na CGD, e para sua perpétua tranquilidade, um panteão.

O PANTEÃO NACIONAL




A "democracia portuguesa" sabe honrar os seus maiores servidores. A Dra. Celeste Cardona, alguém que no eixo Lisboa-Burundi é seguramente reconhecida como um génio da política de justiça, viu os seus vastos méritos amplamente recompensados no púlpito da Caixa Geral de Depósitos. Esta veneranda instituição financeira que em condições normais não passaria honradamente disso mesmo, tem visto a dita "democracia" ornamentá-la com alguns dos seus ex-dedicados serventuários políticos. Pode até afirmar-se que o recorrente "arco constitucional democrático" se sublima simbolicamente na CGD. Só faltava o PP, uma injustiça em boa hora reparada por esta maioria, através da fantástica Dra. Cardona. À semelhança da CGD, outras instituições com idêntica filiação pública, acolhem no seu seio estes ex-mártires da sua causa, a supostamente "pública". E nós todos, agradecidos, limitamo-nos silenciosamente a pagar. Pelos exemplos, dir-se-ia que, afinal, a "classe política" vale mais pela sua vida póstuma do que pela que leva no "activo". Deste modo a "democracia portuguesa", propriedade exclusiva do "arco" partidário agora alargado ao PP, tem na CGD, e para sua perpétua tranquilidade, um panteão.

23.9.04

LÁZARO

Por toda a semana assistimos ao breve ressuscitar do Dr. Sampaio do seu pesado sono presidencial. Entre visitas a hospitais e a centros de saúde destinadas a dissipar "nevoeiros" e "espumas" (sic), Sampaio esboçou um ou outro propósito de "resistência" à valsa da "taxa moderadora" tocada por mero acaso por Santana Lopes. Com o seu ar de actor de filme mudo, o ministro da saúde, respeitador dos novos costumes, achou muito bem que fossem revistas as ditas taxas na linha do "pensamento" do seu primeiro-ministro. Riu-se e abanou graciosamente a cabeça quando lhe perguntaram se isso não colidia com a opinião do presidente. E assim ficou. Numa visão optimista das coisas, que não é definitivamente a minha, talvez Sampaio tenha começado, muito ao de leve, a perceber no que é que está metido. O medo que demonstrou em Julho perante a avassaladora dupla Santana/Portas tolheu-lhe irreparavelmente o mandato político. Só lhe resta, porventura como mera consolação, distribuir uns conselhos e enunciar umas vagas intenções "moderadoras". Qual Lázaro, Sampaio lá vai seguindo como pode o conselho da mãe de Sartre, em As Palavras: deslizem mortais, não façam peso.

LÁZARO

Por toda a semana assistimos ao breve ressuscitar do Dr. Sampaio do seu pesado sono presidencial. Entre visitas a hospitais e a centros de saúde destinadas a dissipar "nevoeiros" e "espumas" (sic), Sampaio esboçou um ou outro propósito de "resistência" à valsa da "taxa moderadora" tocada por mero acaso por Santana Lopes. Com o seu ar de actor de filme mudo, o ministro da saúde, respeitador dos novos costumes, achou muito bem que fossem revistas as ditas taxas na linha do "pensamento" do seu primeiro-ministro. Riu-se e abanou graciosamente a cabeça quando lhe perguntaram se isso não colidia com a opinião do presidente. E assim ficou. Numa visão optimista das coisas, que não é definitivamente a minha, talvez Sampaio tenha começado, muito ao de leve, a perceber no que é que está metido. O medo que demonstrou em Julho perante a avassaladora dupla Santana/Portas tolheu-lhe irreparavelmente o mandato político. Só lhe resta, porventura como mera consolação, distribuir uns conselhos e enunciar umas vagas intenções "moderadoras". Qual Lázaro, Sampaio lá vai seguindo como pode o conselho da mãe de Sartre, em As Palavras: deslizem mortais, não façam peso.

NOTÍCIAS DO CABARET DA COXA

Uma. Segundo Rui Unas, que apresenta o Cabaret da Coxa na SIC Radical, Santana Lopes teria "pedido" ao respectivo director que não fosse afixado no cenário do programa, como estaria previsto, o seu retrato. Juntar-se-ia a figuras mundialmente famosas e aplaudidas, como Jesus Cristo ou a Virgem Maria. Fica-se sem saber se Lopes não quis figurar nesta galeria por modéstia, vaidade ou meramente por pura inveja.
Duas. Os pequenos homens do PSD/Porto, em cujo torpe firmamento brilha um tal Marco António, encartado "santanista", admoestaram Marcelo Rebelo de Sousa pelos "ataques" dominicais ao governo de que eles são simultaneamente guardiões e tapete. Outras criaturas intelectualmente mais sustentadas mas igualmente apreciadoras do género, também têm chamado a atenção - naturalmente a quem de "direito" - para a heresia marcelista. Quem será o primeiro a atrever-se a fazer um "pedido"?
Três. Ao receber a administração da GALP, Álvaro Barreto manifestou, como fez questão de salientar, "pessoalmente a opinião" que a refinaria de Matosinhos não devia fechar. Falta ouvir "a opinião" de Mexia e de Nobre Guedes, cujo recém deslumbramento pelo "verde" é, no mínimo, suspeito. Quanto à "opinião" de Santana Lopes, temos de esperar pela próxima, se Deus quiser. Afinal eles opinam ou governam?

NOTÍCIAS DO CABARET DA COXA

Uma.</strong> Segundo Rui Unas, que apresenta o Cabaret da Coxa na SIC Radical, Santana Lopes teria "pedido" ao respectivo director que não fosse afixado no cenário do programa, como estaria previsto, o seu retrato. Juntar-se-ia a figuras mundialmente famosas e aplaudidas, como Jesus Cristo ou a Virgem Maria. Fica-se sem saber se Lopes não quis figurar nesta galeria por modéstia, vaidade ou meramente por pura inveja.
Duas.</strong> Os pequenos homens do PSD/Porto, em cujo torpe firmamento brilha um tal Marco António, encartado "santanista", admoestaram Marcelo Rebelo de Sousa pelos "ataques" dominicais ao governo de que eles são simultaneamente guardiões e tapete. Outras criaturas intelectualmente mais sustentadas mas igualmente apreciadoras do género, também têm chamado a atenção - naturalmente a quem de "direito" - para a heresia marcelista. Quem será o primeiro a atrever-se a fazer um "pedido"?
Três.</strong> Ao receber a administração da GALP, Álvaro Barreto manifestou, como fez questão de salientar, "pessoalmente a opinião" que a refinaria de Matosinhos não devia fechar. Falta ouvir "a opinião" de Mexia e de Nobre Guedes, cujo recém deslumbramento pelo "verde" é, no mínimo, suspeito. Quanto à "opinião" de Santana Lopes, temos de esperar pela próxima, se Deus quiser. Afinal eles opinam ou governam?

LER OS OUTROS

No Bloguítica, "Os Sem Abrigo". Pode ser complementado com as páginas da Visão dedicadas ao "ataque à classe média" ou com as notícias acerca das "relações" da empresa "Compta" (a das listas ) com certa classe político-empresarial ou empresarial-política, o que vai dar ao mesmo. E depois admiram-se quando, por exemplo na Alemanha, os partidos neo-nazis reforçam a sua representação parlamentar regional. A seguir igualmente as "entrevistas" do Anarquista Constipado.

LER OS OUTROS

No Bloguítica, "Os Sem Abrigo". Pode ser complementado com as páginas da Visão dedicadas ao "ataque à classe média" ou com as notícias acerca das "relações" da empresa "Compta" (a das listas ) com certa classe político-empresarial ou empresarial-política, o que vai dar ao mesmo. E depois admiram-se quando, por exemplo na Alemanha, os partidos neo-nazis reforçam a sua representação parlamentar regional. A seguir igualmente as "entrevistas" do Anarquista Constipado.

O CÓDIGO DA PARÓQUIA




A soberba saloia de alguns "escritores" portugueses manifestou-se este fim-de-semana na revista Actual do Expresso. O jornal dedicou um mini-dossiê ao livro de Dan Brown, O Código Da Vinci (Bertrand Editora). Não faço ideia em que edição é que o livro já vai, porém registo que, pelo menos na praia, em cada grupo de, digamos, cinco pessoas que liam um livro, três seguramente estavam a ler a obra de Brown. Esta vulgaridade "incomoda" os nosso literatos "intimistas". A amabilidade de um amigo, entusiasmado com a sua leitura, fez-me ler, de empréstimo e em três ou quatro dias, o tão procurado tomo. Presumo que o seu sucesso, a nível mundial, terá a ver com a circunstãncia de o livro combinar uma trama policial com uma série de "referências" culturais e espirituais, umas mais fantasiosas do que outras, mas todas destinadas a desenvolver o chamado "guessing instinct" do leitor, algo de que falava o filósofo americano Charles Peirce. O livro vive dessa intensa cavalgada percorrida através de pequenos capítulos cujas linhas finais "obrigam" a que a avidez curiosa do leitor passe imediatamente para o seguinte, praticamente sem parar. Não há, por isso, qualquer "densidade psicológica" nos principais personagens, criaturas que Brown torna puros reféns da sua "história" e do seu "suspense". Pelo meio há momentos em que a coisa "empastela" um bocado, particularmente quando se anda em torno das decifrações dos "sinais" que vão sendo deixados pelo caminho. E, em certo sentido, as páginas finais não deixam de ser um tanto ou quanto decepcionantes. Nada disto,porém, justifica o desdém altivo que os "escritores portugueses", inquiridos pelo Expresso, revelaram. Num país em que os índices de leitura são o que são e a "literatura portuguesa" é o que é, a circunstância de milhares de pessoas lerem este livro é, à partida, positiva. A imensa vaidade destes nossos "intelectuais" impede-os de reconhecer uma simples evidência. A obra de Dan Brown é uma mera fantasia histórico-espiritualista e pictórica, quase um "livro policial", em muitos aspectos irónico e amusant, que se lê de um fôlego. Pouco me interessa saber se há pormenores verdadeiros ou mentirosos na trama, a partir do momento em que parto para aquela leitura com o simples propósito de me divertir e não necessariamente de me "cultivar". As mediocridades brilhantes que constituem grande parte do nosso "universo" dito literário, não compreendem isto. Vivem, como sempre viveram, sobre um outro código, o seu pequeno código da paróquia.

O CÓDIGO DA PARÓQUIA




A soberba saloia de alguns "escritores" portugueses manifestou-se este fim-de-semana na revista Actual do Expresso. O jornal dedicou um mini-dossiê ao livro de Dan Brown, O Código Da Vinci (Bertrand Editora). Não faço ideia em que edição é que o livro já vai, porém registo que, pelo menos na praia, em cada grupo de, digamos, cinco pessoas que liam um livro, três seguramente estavam a ler a obra de Brown. Esta vulgaridade "incomoda" os nosso literatos "intimistas". A amabilidade de um amigo, entusiasmado com a sua leitura, fez-me ler, de empréstimo e em três ou quatro dias, o tão procurado tomo. Presumo que o seu sucesso, a nível mundial, terá a ver com a circunstãncia de o livro combinar uma trama policial com uma série de "referências" culturais e espirituais, umas mais fantasiosas do que outras, mas todas destinadas a desenvolver o chamado "guessing instinct" do leitor, algo de que falava o filósofo americano Charles Peirce. O livro vive dessa intensa cavalgada percorrida através de pequenos capítulos cujas linhas finais "obrigam" a que a avidez curiosa do leitor passe imediatamente para o seguinte, praticamente sem parar. Não há, por isso, qualquer "densidade psicológica" nos principais personagens, criaturas que Brown torna puros reféns da sua "história" e do seu "suspense". Pelo meio há momentos em que a coisa "empastela" um bocado, particularmente quando se anda em torno das decifrações dos "sinais" que vão sendo deixados pelo caminho. E, em certo sentido, as páginas finais não deixam de ser um tanto ou quanto decepcionantes. Nada disto,porém, justifica o desdém altivo que os "escritores portugueses", inquiridos pelo Expresso, revelaram. Num país em que os índices de leitura são o que são e a "literatura portuguesa" é o que é, a circunstância de milhares de pessoas lerem este livro é, à partida, positiva. A imensa vaidade destes nossos "intelectuais" impede-os de reconhecer uma simples evidência. A obra de Dan Brown é uma mera fantasia histórico-espiritualista e pictórica, quase um "livro policial", em muitos aspectos irónico e amusant, que se lê de um fôlego. Pouco me interessa saber se há pormenores verdadeiros ou mentirosos na trama, a partir do momento em que parto para aquela leitura com o simples propósito de me divertir e não necessariamente de me "cultivar". As mediocridades brilhantes que constituem grande parte do nosso "universo" dito literário, não compreendem isto. Vivem, como sempre viveram, sobre um outro código, o seu pequeno código da paróquia.

22.9.04

POPULISMO É...

...o Dr. Nobre Guedes, o novo salvador ecológico da nação e campeão na modalidade virtual "anti-interesses", vir dizer, a partir da Madeira, que vai "mudar em seis meses o ambiente e o ordenamento do território em Portugal" e que tem, por consequência, "todos os meios para mudar Portugal".

POPULISMO É...

...o Dr. Nobre Guedes, o novo salvador ecológico da nação e campeão na modalidade virtual "anti-interesses", vir dizer, a partir da Madeira, que vai "mudar em seis meses o ambiente e o ordenamento do território em Portugal" e que tem, por consequência, "todos os meios para mudar Portugal".

QUEM DIRIA...

Le couple franco-allemand est plus nécessaire que jamais et moins suffisant que jamais. Il est irremplaçable. Ceux qui protestent quelquefois contre la coordination franco-allemande oublient quelles seraient les conséquences s'il n'y avait pas cette coordination. Nem Chirac nem Schroeder proferiram estas palavras e Zapatero, outro dia, já tinha dito que "a velha europa estava mais nova do que nunca". Pois bem. Este excerto, retirado ao Le Monde, pertence a uma entrevista com José Manuel Barroso, o futuro presidente da Comissão Europeia. Mais vale tarde do que nunca. Quem diria...

QUEM DIRIA...

Le couple franco-allemand est plus nécessaire que jamais et moins suffisant que jamais. Il est irremplaçable. Ceux qui protestent quelquefois contre la coordination franco-allemande oublient quelles seraient les conséquences s'il n'y avait pas cette coordination. Nem Chirac nem Schroeder proferiram estas palavras e Zapatero, outro dia, já tinha dito que "a velha europa estava mais nova do que nunca". Pois bem. Este excerto, retirado ao Le Monde, pertence a uma entrevista com José Manuel Barroso, o futuro presidente da Comissão Europeia. Mais vale tarde do que nunca. Quem diria...

TEMPO NOVO?

Derrotada pelo "sistema", Carmo Seabra foi forçada a recorrer ao velho método da colocação manual dos professores. Segundo ela, um "grupo de trabalho a constituir" tratará da função até ao dia 30 de Setembro. Quem assistiu ao anúncio pela televisões, ao qual naturalmente não faltou o "ponto" do governo, Morais Sarmento, percebeu com facilidade que a ministra, apesar do esforço, não controla politicamente o seu sector. Sarmento também percebeu e teve de falar. Daqui em diante, cada vez que Carmo Seabra propuser ou anunciar uma medida, ninguém a levará suficientemente a sério. É isto o "tempo novo"?




P.S: Uma palavra de apreço pelas intervenções, sobre esta matéria, de Maria de Fátima Bonifácio na RTP e na SIC Notícias.

TEMPO NOVO?

Derrotada pelo "sistema", Carmo Seabra foi forçada a recorrer ao velho método da colocação manual dos professores. Segundo ela, um "grupo de trabalho a constituir" tratará da função até ao dia 30 de Setembro. Quem assistiu ao anúncio pela televisões, ao qual naturalmente não faltou o "ponto" do governo, Morais Sarmento, percebeu com facilidade que a ministra, apesar do esforço, não controla politicamente o seu sector. Sarmento também percebeu e teve de falar. Daqui em diante, cada vez que Carmo Seabra propuser ou anunciar uma medida, ninguém a levará suficientemente a sério. É isto o "tempo novo"?




P.S: Uma palavra de apreço pelas intervenções, sobre esta matéria, de Maria de Fátima Bonifácio na RTP e na SIC Notícias.

RAMBO-CALMO

Depois do "euro-calmo" e do "aborto-calmo", Paulo Portas descobriu, na Madeira, uma nova "linha" para o PP, por interposto Nobre Guedes: o "Rambo-calmo".

RAMBO-CALMO

Depois do "euro-calmo" e do "aborto-calmo", Paulo Portas descobriu, na Madeira, uma nova "linha" para o PP, por interposto Nobre Guedes: o "Rambo-calmo".

21.9.04

POPULISMO É...

...anunciar uma "medida" do tipo "compre o passe social que desconta no IRS".

POPULISMO É...

...anunciar uma "medida" do tipo "compre o passe social que desconta no IRS".

AINDA BEM QUE NÃO SOU SÓ EU

Ler "Pirâmide Invertida" no Bloguítica.

AINDA BEM QUE NÃO SOU SÓ EU

Ler "Pirâmide Invertida" no Bloguítica.

QUASE

Na televisão, num debate sobre a "educação", Carmo Seabra assumiu descontraidamente que o ano escolar começou da pior maneira. No mesmo programa, o director de uma escola de Bruxelas considerou que era "inconcebível" passar-se numa escola belga uma novela idêntica à que está aqui em curso quanto à "colocação dos professores". Carmo Seabra acha que não se pode andar sempre a mexer no "sistema", particularmente neste belo "sistema" que David Justino lhe deixou. O que é preciso é "aperfeiçoar". Francamente não sei como é que Carmo Seabra pode aperfeiçoar uma coisa que não existe. Para o fim do programa, a ministra, ainda mais descontraída, informou que a "lista" estava finalmente a ser "carregada" na internet. Esteve. Uma hora. Às três da manhã foi de novo retirada por causa de mais um "erro informático". Ao contrário do que é esperável, a ministra virou "técnica" e dirigiu pessoalmente estas complicadas operações. A directora responsável, depois de ver escarrapachado num jornal que ia ser demitida, naturalmente nunca mais apareceu no ministério. Carmo Seabra, cuja responsabilidade é política e não técnica, com este gesto voluntarista, ficou amarrada ao destino da sua "lista". Em 24 horas, a "lista" esteve "quase" a sair em vários momentos. Até chegou a "sair" mas voltou a desaparecer. Carmo Seabra herdou uma armadilha e não se apercebeu disso a tempo. Lentamente o "sistema" de ensino público desacredita-se e eu pergunto se tal não é deliberado. Por tudo isto, Carmo Seabra está prestes a ser uma quase ministra da Educação.

QUASE

Na televisão, num debate sobre a "educação", Carmo Seabra assumiu descontraidamente que o ano escolar começou da pior maneira. No mesmo programa, o director de uma escola de Bruxelas considerou que era "inconcebível" passar-se numa escola belga uma novela idêntica à que está aqui em curso quanto à "colocação dos professores". Carmo Seabra acha que não se pode andar sempre a mexer no "sistema", particularmente neste belo "sistema" que David Justino lhe deixou. O que é preciso é "aperfeiçoar". Francamente não sei como é que Carmo Seabra pode aperfeiçoar uma coisa que não existe. Para o fim do programa, a ministra, ainda mais descontraída, informou que a "lista" estava finalmente a ser "carregada" na internet. Esteve. Uma hora. Às três da manhã foi de novo retirada por causa de mais um "erro informático". Ao contrário do que é esperável, a ministra virou "técnica" e dirigiu pessoalmente estas complicadas operações. A directora responsável, depois de ver escarrapachado num jornal que ia ser demitida, naturalmente nunca mais apareceu no ministério. Carmo Seabra, cuja responsabilidade é política e não técnica, com este gesto voluntarista, ficou amarrada ao destino da sua "lista". Em 24 horas, a "lista" esteve "quase" a sair em vários momentos. Até chegou a "sair" mas voltou a desaparecer. Carmo Seabra herdou uma armadilha e não se apercebeu disso a tempo. Lentamente o "sistema" de ensino público desacredita-se e eu pergunto se tal não é deliberado. Por tudo isto, Carmo Seabra está prestes a ser uma quase ministra da Educação.

20.9.04

A LAGARTIXA

Santana Lopes. Cada vez mais nota-se uma opção governativa inicial destinada a resolver bloqueios e impasses que duravam há anos. Nessa opção, o PM escolheu o caminho mais pragmático: começar pelo mais difícil, para terminar o ano em velocidade de cruzeiro e arrancar 2005 com a viragem e a imagem que a maioria e o Governo anterior já tinham dificuldade em fazer e sustentar. Intuitivo como ninguém, Santana impôe o estilo de falar directamente aos portugueses, quando quer, evitando a redoma de vidro em que se torna a residência de S. Bento. E puxa pelos ministros, não os deixando abrandar, divagar ou "marinar". Esta prosa sabuja e surrealista pertence a Luís Delgado, recentemente promovido a "presidente da comissão executiva da Lusomundo Media" e conhecido "comentador" da SIC e do DN, de onde este naco foi retirado. Por este andar e com este estilo "Becel anti-colesterol", Delgado ainda acaba em secretário de Estado ou em ministro. Já vimos coisas piores. Mesmo que isso aconteça, é como diz o outro: "quem nasceu para lagartixa, nunca chega a jacaré".

A LAGARTIXA

Santana Lopes. Cada vez mais nota-se uma opção governativa inicial destinada a resolver bloqueios e impasses que duravam há anos. Nessa opção, o PM escolheu o caminho mais pragmático: começar pelo mais difícil, para terminar o ano em velocidade de cruzeiro e arrancar 2005 com a viragem e a imagem que a maioria e o Governo anterior já tinham dificuldade em fazer e sustentar. Intuitivo como ninguém, Santana impôe o estilo de falar directamente aos portugueses, quando quer, evitando a redoma de vidro em que se torna a residência de S. Bento. E puxa pelos ministros, não os deixando abrandar, divagar ou "marinar". Esta prosa sabuja e surrealista pertence a Luís Delgado, recentemente promovido a "presidente da comissão executiva da Lusomundo Media" e conhecido "comentador" da SIC e do DN, de onde este naco foi retirado. Por este andar e com este estilo "Becel anti-colesterol", Delgado ainda acaba em secretário de Estado ou em ministro. Já vimos coisas piores. Mesmo que isso aconteça, é como diz o outro: "quem nasceu para lagartixa, nunca chega a jacaré".

A BANDEIRA

Depois de uma manifestação contras as touradas, em Lisboa, uns zelosos agentes da PSP detiveram um miúdo de 17 anos. Aparentemente o rapaz estaria a queimar um exemplar da bandeira nacional, bem à vista dos referidos agentes. O tratamento que deve ser dado ao "estandarte" nacional não inclui a imolação pelo fogo, apesar de a dita bandeira já estar "queimada" há muito tempo. Ainda recentemente, por causa do Euro 2004, os indígenas foram incentivados a dar todos os usos possíveis à bandeira e a colocá-la nos sítios mais extravagantes que lhes ocorresse. Suspeito até que alguns patriotas mais entusiasmados tivessem usado roupa interior com as cores verde e rubra, com laivos amarelados. É junto ao que nos é mais precisoso que devemos mostrar todo o nosso amor pátrio, nem que seja na intimidade de uma cueca. Como a SIC fez questão de recordar, a primeira-dama não escapou a este frenesim. Quando a selecção nacional se julgou perto do Olimpo, a senhora apareceu nos jogos ornamentada com uma t-shirt que era uma bandeira e com uma bandeira que era uma t-shirt. Nessa altura, Jorge Sampaio ainda não tinha terminado o seu mandato político e, na qualidade de "símbolo nacional", não pareceu muito incomodado com o facto. Provavelmente o rapaz irá "responder", como se costuma dizer, por este extraordinário delito anti-patriótico. Como me considero um cidadão do mundo que, por manifesta infelicidade, acabou por nascer aqui, este "incidente" impressiona-me tanto como as bandeirinhas nas janelas, nos carros ou como peça de vestuário da D. Maria José Ritta. Não sei do que é que as "autoridades" estavam à espera depois da banalização popularucha da bandeira feita por todo o verão, em apelos sucessivos e ridículos vindos das criaturas mais improváveis. O rapazinho de 17 anos é apenas filho da consentida insanidade geral em que vivemos, divertindo-se à sua maneira. Não sejamos, pois, hipócritas.

A BANDEIRA

Depois de uma manifestação contras as touradas, em Lisboa, uns zelosos agentes da PSP detiveram um miúdo de 17 anos. Aparentemente o rapaz estaria a queimar um exemplar da bandeira nacional, bem à vista dos referidos agentes. O tratamento que deve ser dado ao "estandarte" nacional não inclui a imolação pelo fogo, apesar de a dita bandeira já estar "queimada" há muito tempo. Ainda recentemente, por causa do Euro 2004, os indígenas foram incentivados a dar todos os usos possíveis à bandeira e a colocá-la nos sítios mais extravagantes que lhes ocorresse. Suspeito até que alguns patriotas mais entusiasmados tivessem usado roupa interior com as cores verde e rubra, com laivos amarelados. É junto ao que nos é mais precisoso que devemos mostrar todo o nosso amor pátrio, nem que seja na intimidade de uma cueca. Como a SIC fez questão de recordar, a primeira-dama não escapou a este frenesim. Quando a selecção nacional se julgou perto do Olimpo, a senhora apareceu nos jogos ornamentada com uma t-shirt que era uma bandeira e com uma bandeira que era uma t-shirt. Nessa altura, Jorge Sampaio ainda não tinha terminado o seu mandato político e, na qualidade de "símbolo nacional", não pareceu muito incomodado com o facto. Provavelmente o rapaz irá "responder", como se costuma dizer, por este extraordinário delito anti-patriótico. Como me considero um cidadão do mundo que, por manifesta infelicidade, acabou por nascer aqui, este "incidente" impressiona-me tanto como as bandeirinhas nas janelas, nos carros ou como peça de vestuário da D. Maria José Ritta. Não sei do que é que as "autoridades" estavam à espera depois da banalização popularucha da bandeira feita por todo o verão, em apelos sucessivos e ridículos vindos das criaturas mais improváveis. O rapazinho de 17 anos é apenas filho da consentida insanidade geral em que vivemos, divertindo-se à sua maneira. Não sejamos, pois, hipócritas.

19.9.04

PRIMEIRO ESTRANHA-SE, DEPOIS ENTRANHA-SE

"Pois é. É tão fácil levá-los. No Abrupto. Ou mais uma prova do "bom funcionamento" da "central".

PRIMEIRO ESTRANHA-SE, DEPOIS ENTRANHA-SE

"Pois é. É tão fácil levá-los. No Abrupto. Ou mais uma prova do "bom funcionamento" da "central".

DE QUE É QUE ELES FALAM?

Esta semana a "central" funcionou em pleno. Começou com Bagão Félix, em dose dupla e familiar, passou pela menos feliz Carmo Seabra - muito "desfocada"- e acabou com o próprio Santana Lopes que se despediu dos telespectadores com um comovente "até para a semana, se Deus quiser". Guedes e Barreto? Uma dupla para a vida, assevera. "Educação" ? Onde a ministra diz branco, Lopes vê preto. Deve ser do "tempo novo". Quanto a Bagão, pode ser que sim, mas também pode ser que não. Está escrito nas contas, como no passado estava escrito nas estrelas. Lopes jura a pés juntos que é tudo "combinado com ele", que ele está a "par" de tudo e que este governo tem, finalmente, "uma maneira diferente" de ver as coisas. De que é que eles falam?

DE QUE É QUE ELES FALAM?

Esta semana a "central" funcionou em pleno. Começou com Bagão Félix, em dose dupla e familiar, passou pela menos feliz Carmo Seabra - muito "desfocada"- e acabou com o próprio Santana Lopes que se despediu dos telespectadores com um comovente "até para a semana, se Deus quiser". Guedes e Barreto? Uma dupla para a vida, assevera. "Educação" ? Onde a ministra diz branco, Lopes vê preto. Deve ser do "tempo novo". Quanto a Bagão, pode ser que sim, mas também pode ser que não. Está escrito nas contas, como no passado estava escrito nas estrelas. Lopes jura a pés juntos que é tudo "combinado com ele", que ele está a "par" de tudo e que este governo tem, finalmente, "uma maneira diferente" de ver as coisas. De que é que eles falam?

STEFAN ZWEIG NUMA OUTRA EUROPA



Com a vénia devida ao El País e ao DNA, segue-se o artigo de Agosto de Mario Vargas Llosa. Fala-nos do escritor austríaco Stefan Zweig, de Salzburgo e de tempos sombrios. Ainda hoje nos questionamos - George Steiner, aliás, não faz outra coisa em toda a sua obra - como é que, numa civilização tão "elevada" e luminosa, as mais tenebrosas trevas floresceram. De alguma forma elas sempre lá estiveram e, eventualmente, permanecem como que na tranquilidade perversa de um limbo.

LA MONTÃNA DE LOS CAPUCHINOS

por Mario Vargas Llosa

Más todavía que desde la elevada fortaleza de Hohensalzburg, símbolo y asiento del poder de los Príncipes-arzobispos que durante siglos gobernaron Salzburgo, la armonía y la belleza de la ciudad barroca donde nació Mozart se aprecia mejor desde las laderas de la Kapuzinerberg, una elevación boscosa coronada por un convento de capuchinos construido en el siglo XVI que domina toda la ciudad antigua y las graciosas vueltas y revueltas del Salzach, el río que la atraviesa. La única vivienda que hay en ese bosque es un hermoso pabellón de caza, erigido por un arzobispo en el siglo XVII, que el escritor Stefan Zweig (1881-1942) compró en 1918 y donde vivió hasta febrero de 1934, los años más fecundos y exitosos de su vida literaria. No queda rastro de él en esa casa, salvo acaso el frondoso y aromado jardín, al que el verano ha llenado de flores y de avispas rumorosas. Sus actuales propietarios, dos hermanos, uno empresario y el otro pintor, no parecen saber gran cosa del ilustre hombre de letras al que en aquellos dieciséis años que pasó aquí venían a visitar grandes artistas e intelectuales de toda Europa. Aquella Salzburgo a la que vino a instalarse Stefan Zweig al terminar la primera guerra mundial era pequeñita y miserable –Austria quedó mutilada y arruinada en la contienda- y esta casa estaba llena de goteras, paredes sin pintar y cañerías agujereadas. Para resistir el frío, aquél escribía las biografías, los ensayos históricos y los relatos que devoraban los lectores de medio mundo, sepultado en su cama y con guantes de lana y un gorro de dormir embutido hasta las orejas. Desde la ciudad hasta aquí era preciso subir una escalera de cien peldaños que la nieve, en el invierno, convertía en un tobogán.Pero la belleza y la tranquilidad del lugar justificaban cualquier engorro y, además, atraían a las musas, porque los libros de Zweig de aquellos años –Amok, Carta de una desconocida, los dedicados a Hölderlin, Kleist y Nietzsche y Momentos estelares de la humanidad, entre otros- fueron tan re-editados y traducidos que hicieron de su autor un hombre muy próspero. Zweig aprovechó para invertir esos ingresos en su pasión de coleccionista y el antiguo pabellón de caza se llenó de manuscritos literarios, de partituras, de incunables y ediciones príncipe.En 1920, el director teatral Max Reinhardt y el poeta y dramaturgo Hugo von Hofmannsthal organizaron, en la plaza de la Catedral de Salzburgo, unas representaciones teatrales al aire libre que desde el primer momento tuvieron una gran acogida. Así nació el festival que, en pocos años, convertiría, según Zweig, a Salzburgo “en la capital artística no sólo de Europa, sino del mundo” a la que en el verano acudían “reyes y príncipes, millonarios americanos y estrellas de cine, amantes de la música, escritores y esnobs, a aplaudir aquellos extraordinarios espectáculos”. Ochenta y cuatro años más tarde, el Festival de Salzburgo, dedicado a Mozart, sigue siendo uno de los más prestigiosos y convierte, desde mediados de julio hasta el último día de agosto, a esta ciudad en un enclave civilizado donde la buena música, el buen teatro, excelentes exposiciones, las inquietudes culturales y la alegría parecen ocupar toda la vida. El festival tenía fama de conservador y de envarado en materias artísticas cuando lo dirigía Herbert von Karajan, pero su sucesor, Gérard Mortier, le inyectó un formidable aliento renovador y moderno que, en la actualidad, incluso los que fueron los más ruidosos críticos de su gestión, recuerdan con nostalgia. No ha bajado de categoría con la partida del director belga, pero sí ha perdido el aire juvenil y polémico que Mortier supo insuflarle sin por ello romper con su vocación clásica.El autor ausente...Salvo por un sendero extraviado entre pinares, que lleva su nombre, nada recuerda en Salzburgo a Stefan Sweig. En las guías no se lo menciona, o, apenas, a la carrera y de puntillas, y no hay placa alguna en la casa que habitó, como si la ciudad se sintiera incómoda con el recuerdo de aquel ilustre vecino que, entre 1918 y 1934, fue una de las mayores celebridades que Salzburgo exhibía a los ojos del mundo. ¿Por qué? Porque el autor de El mundo de ayer está íntimamente ligado a un pasado del que esta hermosa ciudad, del que este bellísimo país que es Austria, cuya prosperidad y civilizados modos de vida dejan envidiosos y admirados a los forasteros, se las ha arreglado para olvidar, abolir y reemplazar, como esos emperadores incas que subían al poder con una corte de historiadores cuya función era reconstruir la historia de manera que ésta alcanzara siempre su apogeo con el inca reinante.Desde la montaña de los capuchinos, además del río y la ciudad barroca de las cincuenta iglesias, se divisa una empalizada de piedra que hiende las nubes y cuyo nombre suena como un escalofrío: Berchtesgaden. En su remota cumbre está la casa que Martin Bormann le regaló a Hitler al cumplir éste medio siglo de vida y donde el Fuhrer acostumbraba pasar sus vacaciones. Desde las ventanas de su dormitorio, Stefan Zweig podía divisar aquel nido de águilas donde, en aquellos años, sin que el diligente polígrafo lo sospechara, el caudillo nazi estaba sentando las bases de la tragedia que acabaría con su obra, con su vida y con la de por lo menos veinte millones de europeos.Según confesión propia, los primeros años del nazismo, pese a haber transcurrido a las puertas mismas de Salzburgo, en la vecina Múnich, fueron para él nada más que unas mataperradas de palurdos iletrados que cruzaban la frontera alemana y organizaban marchas y mítines de cuatro gatos donde cantaban canciones patrióticas y vociferaban insultos antisemitas que los vecinos austriacos observaban desde lejos, como payasadas sin importancia. Zweig detestaba la política y, como no se metía con ella, tenía la ingenuidad de creer que ella tampoco se metería nunca con él. De pronto, descubrió que era judío. Lo descubrió en los ojos de su mejor amigo, un intelectual destacado, con el que conversaba, discutía, intercambiaba libros e ideas, y pasaba horas en las tabernas bebiendo sendos porrones de cerveza. El judaísmo debía ser algo muy vago y lejano para este austriaco laico, para este intelectual totalmente integrado a la cultura occidental, para este europeo al que la religión sólo interesaba como objeto de estudio o fuente de placeres estéticos. Y, sin embargo, un buen día, aquel amigo dejó de saludarlo en la calle y, peor todavía, le hizo saber que sólo podían continuar su amistad de manera clandestina, porque para un ario como él se había vuelto demasiado riesgoso frecuentar a un judío.La maldición de su vidaEl estupor de Stefan Zweig fue el mismo que, en esa ciudad prodigiosamente culta y creativa que era en aquellos años Viena, debió de sobrecoger a Karl Popper, a Sigmund Freud, a decenas de músicos, filósofos, economistas, artistas, escritores, arquitectos austriacos, integrados desde hacía generaciones al que creían su país, su sociedad, su cultura, que de la noche a la mañana dejaban de ser lo que eran y pasaban a ser parias, apestados, acosados, perseguidos. Es decir, judíos. Cuando cuatro policías austriacos se presentaron a la casa de la montaña de los capuchinos, en febrero de 1934, con una orden de registro porque se suponía que el propietario escondía armas para una conspiración subversiva, Stefan Zweig comprendió que había llegado la hora de partir. Empaquetó lo que pudo y, sin hacer saber a nadie que huía, escapó a Inglaterra, de donde luego seguiría huyendo, esta vez allende los mares, a Petrópolis, en Brasil, donde en 1942, luego de una tranquila velada en la que jugaron una partida de ajedrez, él y su joven esposa Lotte se suicidaron tomándose una fuerte dosis de Veronal.¿Lamentó en esos años del destierro, mientras veía derrumbarse a su alrededor toda aquella civilización europea refinada y tolerante, a la que había dedicado tantas alabanzas en las figuras que, según él, mejor la encarnaban, un Erasmo, un Montaigne, un Balzac, haber escrito el libreto para la ópera La mujer silenciosa, del proyecto Richard Strauss, niño mimado de los nazis, que se estrenó en Dresden bajo el Tercer Reich? Probablemente, no. Hasta el final, y pese a las atrocidades que vio a su alrededor y padeció en carne propia, Stefan Zweig creyó que cultura y política eran esferas independientes que no debían mezclarse, y que un escritor y un artista, para alcanzar la excelencia estética, debían mantenerse rigurosamente alejados de esa cosa mediocre, vulgar y sucia que es el quehacer político. El colaboró con el eximio compositor de Der Rosenkavalier que se dejó halagar y utilizar por los nazis, no porque compartiera sus criminales prejuicios y fanatismos, sino porque pensaba que era la única manera de preservar pequeños islotes de civilización y cultura en medio de la barbarie política reinante. El país que lo desconoció y expulsó ha hecho de esta ingenua convicción una exitosa filosofía. Cuando se piensa en el nazismo se piensa en Alemania, no en Austria, donde hubo tantos partidarios de Hitler como entre los propios alemanes. Sin embargo, jugando hábilmente la carta del neutralismo, y echando un velo de amnesia y silencio sobre ese pasado comprometedor, Austria ha prosperado, se ha democratizado, y aparece en la historia contemporánea como una de las víctimas más sufridas, y de ninguna manera una cómplice, de las hordas pardas. ¿Es sano o enfermizo pensar en estas cosas cuando se está en Salzburgo gozando de este hermoso día soleado y con una entrada en el bolsillo para oír esta noche en la Grosses Festspielhaus a la Filarmónica de Berlín, con sir Simon Rattle, interpretando las Variaciones de Schönberg y la Novena de Beethoven? Mejor aspirar la fragancia del aire purísimo, distraerse con la geometría de las abejas que evolucionan entre las flores y decirse, embelesado con el espectáculo del río, las torres, los campanarios, los palacios, los conventos, que esto es la felicidad y que aquí encontró inspiración un famoso polígrafo, que Salzburgo se merece a Mozart y Mozart a Salzburgo, y que Berchtesgaden no es más que un alpino pico a cuyos pies está el lago König, donde van a besarse todos los enamorados.


STEFAN ZWEIG NUMA OUTRA EUROPA



Com a vénia devida ao El País e ao DNA, segue-se o artigo de Agosto de Mario Vargas Llosa. Fala-nos do escritor austríaco Stefan Zweig, de Salzburgo e de tempos sombrios. Ainda hoje nos questionamos - George Steiner, aliás, não faz outra coisa em toda a sua obra - como é que, numa civilização tão "elevada" e luminosa, as mais tenebrosas trevas floresceram. De alguma forma elas sempre lá estiveram e, eventualmente, permanecem como que na tranquilidade perversa de um limbo.

LA MONTÃNA DE LOS CAPUCHINOS

por Mario Vargas Llosa

Más todavía que desde la elevada fortaleza de Hohensalzburg, símbolo y asiento del poder de los Príncipes-arzobispos que durante siglos gobernaron Salzburgo, la armonía y la belleza de la ciudad barroca donde nació Mozart se aprecia mejor desde las laderas de la Kapuzinerberg, una elevación boscosa coronada por un convento de capuchinos construido en el siglo XVI que domina toda la ciudad antigua y las graciosas vueltas y revueltas del Salzach, el río que la atraviesa. La única vivienda que hay en ese bosque es un hermoso pabellón de caza, erigido por un arzobispo en el siglo XVII, que el escritor Stefan Zweig (1881-1942) compró en 1918 y donde vivió hasta febrero de 1934, los años más fecundos y exitosos de su vida literaria. No queda rastro de él en esa casa, salvo acaso el frondoso y aromado jardín, al que el verano ha llenado de flores y de avispas rumorosas. Sus actuales propietarios, dos hermanos, uno empresario y el otro pintor, no parecen saber gran cosa del ilustre hombre de letras al que en aquellos dieciséis años que pasó aquí venían a visitar grandes artistas e intelectuales de toda Europa. Aquella Salzburgo a la que vino a instalarse Stefan Zweig al terminar la primera guerra mundial era pequeñita y miserable –Austria quedó mutilada y arruinada en la contienda- y esta casa estaba llena de goteras, paredes sin pintar y cañerías agujereadas. Para resistir el frío, aquél escribía las biografías, los ensayos históricos y los relatos que devoraban los lectores de medio mundo, sepultado en su cama y con guantes de lana y un gorro de dormir embutido hasta las orejas. Desde la ciudad hasta aquí era preciso subir una escalera de cien peldaños que la nieve, en el invierno, convertía en un tobogán.Pero la belleza y la tranquilidad del lugar justificaban cualquier engorro y, además, atraían a las musas, porque los libros de Zweig de aquellos años –Amok, Carta de una desconocida, los dedicados a Hölderlin, Kleist y Nietzsche y Momentos estelares de la humanidad, entre otros- fueron tan re-editados y traducidos que hicieron de su autor un hombre muy próspero. Zweig aprovechó para invertir esos ingresos en su pasión de coleccionista y el antiguo pabellón de caza se llenó de manuscritos literarios, de partituras, de incunables y ediciones príncipe.En 1920, el director teatral Max Reinhardt y el poeta y dramaturgo Hugo von Hofmannsthal organizaron, en la plaza de la Catedral de Salzburgo, unas representaciones teatrales al aire libre que desde el primer momento tuvieron una gran acogida. Así nació el festival que, en pocos años, convertiría, según Zweig, a Salzburgo “en la capital artística no sólo de Europa, sino del mundo” a la que en el verano acudían “reyes y príncipes, millonarios americanos y estrellas de cine, amantes de la música, escritores y esnobs, a aplaudir aquellos extraordinarios espectáculos”. Ochenta y cuatro años más tarde, el Festival de Salzburgo, dedicado a Mozart, sigue siendo uno de los más prestigiosos y convierte, desde mediados de julio hasta el último día de agosto, a esta ciudad en un enclave civilizado donde la buena música, el buen teatro, excelentes exposiciones, las inquietudes culturales y la alegría parecen ocupar toda la vida. El festival tenía fama de conservador y de envarado en materias artísticas cuando lo dirigía Herbert von Karajan, pero su sucesor, Gérard Mortier, le inyectó un formidable aliento renovador y moderno que, en la actualidad, incluso los que fueron los más ruidosos críticos de su gestión, recuerdan con nostalgia. No ha bajado de categoría con la partida del director belga, pero sí ha perdido el aire juvenil y polémico que Mortier supo insuflarle sin por ello romper con su vocación clásica.El autor ausente...Salvo por un sendero extraviado entre pinares, que lleva su nombre, nada recuerda en Salzburgo a Stefan Sweig. En las guías no se lo menciona, o, apenas, a la carrera y de puntillas, y no hay placa alguna en la casa que habitó, como si la ciudad se sintiera incómoda con el recuerdo de aquel ilustre vecino que, entre 1918 y 1934, fue una de las mayores celebridades que Salzburgo exhibía a los ojos del mundo. ¿Por qué? Porque el autor de El mundo de ayer está íntimamente ligado a un pasado del que esta hermosa ciudad, del que este bellísimo país que es Austria, cuya prosperidad y civilizados modos de vida dejan envidiosos y admirados a los forasteros, se las ha arreglado para olvidar, abolir y reemplazar, como esos emperadores incas que subían al poder con una corte de historiadores cuya función era reconstruir la historia de manera que ésta alcanzara siempre su apogeo con el inca reinante.Desde la montaña de los capuchinos, además del río y la ciudad barroca de las cincuenta iglesias, se divisa una empalizada de piedra que hiende las nubes y cuyo nombre suena como un escalofrío: Berchtesgaden. En su remota cumbre está la casa que Martin Bormann le regaló a Hitler al cumplir éste medio siglo de vida y donde el Fuhrer acostumbraba pasar sus vacaciones. Desde las ventanas de su dormitorio, Stefan Zweig podía divisar aquel nido de águilas donde, en aquellos años, sin que el diligente polígrafo lo sospechara, el caudillo nazi estaba sentando las bases de la tragedia que acabaría con su obra, con su vida y con la de por lo menos veinte millones de europeos.Según confesión propia, los primeros años del nazismo, pese a haber transcurrido a las puertas mismas de Salzburgo, en la vecina Múnich, fueron para él nada más que unas mataperradas de palurdos iletrados que cruzaban la frontera alemana y organizaban marchas y mítines de cuatro gatos donde cantaban canciones patrióticas y vociferaban insultos antisemitas que los vecinos austriacos observaban desde lejos, como payasadas sin importancia. Zweig detestaba la política y, como no se metía con ella, tenía la ingenuidad de creer que ella tampoco se metería nunca con él. De pronto, descubrió que era judío. Lo descubrió en los ojos de su mejor amigo, un intelectual destacado, con el que conversaba, discutía, intercambiaba libros e ideas, y pasaba horas en las tabernas bebiendo sendos porrones de cerveza. El judaísmo debía ser algo muy vago y lejano para este austriaco laico, para este intelectual totalmente integrado a la cultura occidental, para este europeo al que la religión sólo interesaba como objeto de estudio o fuente de placeres estéticos. Y, sin embargo, un buen día, aquel amigo dejó de saludarlo en la calle y, peor todavía, le hizo saber que sólo podían continuar su amistad de manera clandestina, porque para un ario como él se había vuelto demasiado riesgoso frecuentar a un judío.La maldición de su vidaEl estupor de Stefan Zweig fue el mismo que, en esa ciudad prodigiosamente culta y creativa que era en aquellos años Viena, debió de sobrecoger a Karl Popper, a Sigmund Freud, a decenas de músicos, filósofos, economistas, artistas, escritores, arquitectos austriacos, integrados desde hacía generaciones al que creían su país, su sociedad, su cultura, que de la noche a la mañana dejaban de ser lo que eran y pasaban a ser parias, apestados, acosados, perseguidos. Es decir, judíos. Cuando cuatro policías austriacos se presentaron a la casa de la montaña de los capuchinos, en febrero de 1934, con una orden de registro porque se suponía que el propietario escondía armas para una conspiración subversiva, Stefan Zweig comprendió que había llegado la hora de partir. Empaquetó lo que pudo y, sin hacer saber a nadie que huía, escapó a Inglaterra, de donde luego seguiría huyendo, esta vez allende los mares, a Petrópolis, en Brasil, donde en 1942, luego de una tranquila velada en la que jugaron una partida de ajedrez, él y su joven esposa Lotte se suicidaron tomándose una fuerte dosis de Veronal.¿Lamentó en esos años del destierro, mientras veía derrumbarse a su alrededor toda aquella civilización europea refinada y tolerante, a la que había dedicado tantas alabanzas en las figuras que, según él, mejor la encarnaban, un Erasmo, un Montaigne, un Balzac, haber escrito el libreto para la ópera La mujer silenciosa, del proyecto Richard Strauss, niño mimado de los nazis, que se estrenó en Dresden bajo el Tercer Reich? Probablemente, no. Hasta el final, y pese a las atrocidades que vio a su alrededor y padeció en carne propia, Stefan Zweig creyó que cultura y política eran esferas independientes que no debían mezclarse, y que un escritor y un artista, para alcanzar la excelencia estética, debían mantenerse rigurosamente alejados de esa cosa mediocre, vulgar y sucia que es el quehacer político. El colaboró con el eximio compositor de Der Rosenkavalier que se dejó halagar y utilizar por los nazis, no porque compartiera sus criminales prejuicios y fanatismos, sino porque pensaba que era la única manera de preservar pequeños islotes de civilización y cultura en medio de la barbarie política reinante. El país que lo desconoció y expulsó ha hecho de esta ingenua convicción una exitosa filosofía. Cuando se piensa en el nazismo se piensa en Alemania, no en Austria, donde hubo tantos partidarios de Hitler como entre los propios alemanes. Sin embargo, jugando hábilmente la carta del neutralismo, y echando un velo de amnesia y silencio sobre ese pasado comprometedor, Austria ha prosperado, se ha democratizado, y aparece en la historia contemporánea como una de las víctimas más sufridas, y de ninguna manera una cómplice, de las hordas pardas. ¿Es sano o enfermizo pensar en estas cosas cuando se está en Salzburgo gozando de este hermoso día soleado y con una entrada en el bolsillo para oír esta noche en la Grosses Festspielhaus a la Filarmónica de Berlín, con sir Simon Rattle, interpretando las Variaciones de Schönberg y la Novena de Beethoven? Mejor aspirar la fragancia del aire purísimo, distraerse con la geometría de las abejas que evolucionan entre las flores y decirse, embelesado con el espectáculo del río, las torres, los campanarios, los palacios, los conventos, que esto es la felicidad y que aquí encontró inspiración un famoso polígrafo, que Salzburgo se merece a Mozart y Mozart a Salzburgo, y que Berchtesgaden no es más que un alpino pico a cuyos pies está el lago König, donde van a besarse todos los enamorados.


18.9.04

PEDRO E OS LOBOS (act.)

1. A propósito do episódio Mira Amaral, um amigo chamava-me ontem a atenção para um estudo duma instituição universitária acerca das cerca de três centenas de criaturas que, de há mais de uma década para cá, circulam intermitentemente entre altos cargos gestionários - na administração pública, no sector empresarial estatal ou privado - e o poder político. Em torno destas 300 almas existe uma cumplicidade transpartidária, perfeitamente institucionalizada, que tem raízes subterrâneas inacessíveis ao comum dos mortais. Por exemplo, o Santo Nome de Deus é muito invocado, e nada em vão, para justificar pertenças e comunidade de interesses muito para além da inscrição em partidos diferentes. Ao pé destes sólidos e insólitos associativismos, velhos e novos, a Maçonaria é cada vez mais uma agremiação filantrópica de meninos do coro. Os antigos "monopolistas", tão caros ao regime do Dr. Salazar, foram substituídos por estas novas "aves de rapina" que o "pacote democrático" engendrou voluntaria e involuntariamente. Não é por acaso que Bagão Félix, ao comentar publicamente o assunto Mira Amaral, se revelou "incomodado" perante a brutalidade da evidência. O "quase obsceno" que murmurou é sinónimo da falsa credulidade do poder político perante este vampirismo crónico gerado ironicamente no seu seio e por ele alimentado. Quem diz Mira Amaral, pode dizer Pina Moura, Couto dos Santos, Murteira Nabo ou Álvaro Barreto e por aí fora. O ad hominem é o que aqui menos pesa. Toda esta obscura ou conhecida gente ronda agora Santana Lopes, como no passado rondou quem mandava, e assim será no futuro. Um dia ele acabará por sair, como saem todos. Os outros vieram para ficar.
2. Neste contexto, acho uma certa piada ao endeusamento de que Nobre Guedes anda a ser objecto por causa do inquérito à GALP. Guedes é claramente daquelas pessoas que "só dá um chouriço a quem lhe der um porco". O fatinho "verde", ataviado à pressa, assenta-lhe mal. Conseguiu, graças à distracção dos vizinhos do lado, vestir uma pele de cordeiro e passar por herói "anti-interesses". A "sua" "central de informação", com a ajuda de alguns ingénuos, encarrega-se do resto.

PEDRO E OS LOBOS (act.)

1. A propósito do episódio Mira Amaral, um amigo chamava-me ontem a atenção para um estudo duma instituição universitária acerca das cerca de três centenas de criaturas que, de há mais de uma década para cá, circulam intermitentemente entre altos cargos gestionários - na administração pública, no sector empresarial estatal ou privado - e o poder político. Em torno destas 300 almas existe uma cumplicidade transpartidária, perfeitamente institucionalizada, que tem raízes subterrâneas inacessíveis ao comum dos mortais. Por exemplo, o Santo Nome de Deus é muito invocado, e nada em vão, para justificar pertenças e comunidade de interesses muito para além da inscrição em partidos diferentes. Ao pé destes sólidos e insólitos associativismos, velhos e novos, a Maçonaria é cada vez mais uma agremiação filantrópica de meninos do coro. Os antigos "monopolistas", tão caros ao regime do Dr. Salazar, foram substituídos por estas novas "aves de rapina" que o "pacote democrático" engendrou voluntaria e involuntariamente. Não é por acaso que Bagão Félix, ao comentar publicamente o assunto Mira Amaral, se revelou "incomodado" perante a brutalidade da evidência. O "quase obsceno" que murmurou é sinónimo da falsa credulidade do poder político perante este vampirismo crónico gerado ironicamente no seu seio e por ele alimentado. Quem diz Mira Amaral, pode dizer Pina Moura, Couto dos Santos, Murteira Nabo ou Álvaro Barreto e por aí fora. O ad hominem é o que aqui menos pesa. Toda esta obscura ou conhecida gente ronda agora Santana Lopes, como no passado rondou quem mandava, e assim será no futuro. Um dia ele acabará por sair, como saem todos. Os outros vieram para ficar.
2. Neste contexto, acho uma certa piada ao endeusamento de que Nobre Guedes anda a ser objecto por causa do inquérito à GALP. Guedes é claramente daquelas pessoas que "só dá um chouriço a quem lhe der um porco". O fatinho "verde", ataviado à pressa, assenta-lhe mal. Conseguiu, graças à distracção dos vizinhos do lado, vestir uma pele de cordeiro e passar por herói "anti-interesses". A "sua" "central de informação", com a ajuda de alguns ingénuos, encarrega-se do resto.

17.9.04

LER OS OUTROS

Na Bloguítica, "Roller Coaster", e no Abrupto, "Obsessão". Por causa da "temporada", desta vez no bom sentido, no Crítico, "Festival de Órgão de Lisboa". Agora arrumadinho por "temas", "O Dicionário Não Ilustrado" no Opiniondesmaker.

LER OS OUTROS

Na Bloguítica, "Roller Coaster", e no Abrupto, "Obsessão". Por causa da "temporada", desta vez no bom sentido, no Crítico, "Festival de Órgão de Lisboa". Agora arrumadinho por "temas", "O Dicionário Não Ilustrado" no Opiniondesmaker.

A TEMPORADA

Pelo que vejo e ouço, o "parque cultural" da tutela do ministério da Cultura continua moribundo e soturno. O fantasma Roseta paira sobre o leque da actual titular, a bem parecida Dra. Maria João Bustorff. Os dois secretários de Estado arrastam-se no conveniente anonimato. Não se sabe sequer se Amaral Lopes já consegiu chegar a Évora para onde foi desterrado com os seus "bens culturais". A poliédrica Casa da Música do Porto não tem aparentemente remédio e o o Dr. Monteiro, o ano passado "salvador", acaba de pedir a honrada demissão.Os teatros nacionais tardam em acordar da habitual letargia, onde as únicas pessoas com talento e imaginação, o Ricardo Pais e o António Lagarto, vão fazendo o que podem. No São Carlos prolonga-se doentiamente a vulgaridade embotada dos últimos anos e não se apresenta um programa nem se fecha o teatro para o pensar convenientemente, como se devia fazer. A temporada continua sombria.

A TEMPORADA

Pelo que vejo e ouço, o "parque cultural" da tutela do ministério da Cultura continua moribundo e soturno. O fantasma Roseta paira sobre o leque da actual titular, a bem parecida Dra. Maria João Bustorff. Os dois secretários de Estado arrastam-se no conveniente anonimato. Não se sabe sequer se Amaral Lopes já consegiu chegar a Évora para onde foi desterrado com os seus "bens culturais". A poliédrica Casa da Música do Porto não tem aparentemente remédio e o o Dr. Monteiro, o ano passado "salvador", acaba de pedir a honrada demissão.Os teatros nacionais tardam em acordar da habitual letargia, onde as únicas pessoas com talento e imaginação, o Ricardo Pais e o António Lagarto, vão fazendo o que podem. No São Carlos prolonga-se doentiamente a vulgaridade embotada dos últimos anos e não se apresenta um programa nem se fecha o teatro para o pensar convenientemente, como se devia fazer. A temporada continua sombria.

MARIA CALLAS



Numa das biografias da Callas, Tito Gobbi, esse extraordinário barítono e amigo da cantora, contava que, para o fim, o seu medo da solidão era de tal ordem que Callas adiava o mais que podia o regresso a casa quando se encontravam. Qualquer pretexto servia. Bastava um gelado para continuarem a dar uma "voltinha". Maria Callas, cujo desaparecimento ocorreu a 16 de Setembro de 1977, constitui seguramente um dos maiores fenómenos musicais do século XX. Nada ficou na mesma no mundo operático depois da sua passagem. Com um timbre particular - os puristas dizem mesmo que nem sequer era "bonito" -, Callas ressuscitou papéis há muito esquecidos e difíceis de trabalhar, tornando essas versões incontornáveis. Até aos anos 60, altura em que a sua voz começou a seguir uma direcção imprevista, quaisquer gravações da Callas são amplamente recomendáveis. Com a diluição da figura do "grande intérprete" nas produções e nas encenações dos dias de hoje, é mais complicado perceber o que significava esta genialidade pura. Callas passou por cá uma única vez para cantar La Traviata no São Carlos, no tempo do cada vez mais saudoso José Figueiredo. Os últimos anos foram passados entre o recolhimento e uma patética tournée mundial com Di Stefano, em que ambos eram já uma pálida imagem do que haviam sido. Os comprimidos, esses falsos amigos, eram o resto da companhia. Em Paris, a 16 de Setembro de 1977, Maria Callas, numa súbita vertigem, entrava definitivamente na eternidade que a consagrou e puniu.

MARIA CALLAS



Numa das biografias da Callas, Tito Gobbi, esse extraordinário barítono e amigo da cantora, contava que, para o fim, o seu medo da solidão era de tal ordem que Callas adiava o mais que podia o regresso a casa quando se encontravam. Qualquer pretexto servia. Bastava um gelado para continuarem a dar uma "voltinha". Maria Callas, cujo desaparecimento ocorreu a 16 de Setembro de 1977, constitui seguramente um dos maiores fenómenos musicais do século XX. Nada ficou na mesma no mundo operático depois da sua passagem. Com um timbre particular - os puristas dizem mesmo que nem sequer era "bonito" -, Callas ressuscitou papéis há muito esquecidos e difíceis de trabalhar, tornando essas versões incontornáveis. Até aos anos 60, altura em que a sua voz começou a seguir uma direcção imprevista, quaisquer gravações da Callas são amplamente recomendáveis. Com a diluição da figura do "grande intérprete" nas produções e nas encenações dos dias de hoje, é mais complicado perceber o que significava esta genialidade pura. Callas passou por cá uma única vez para cantar La Traviata no São Carlos, no tempo do cada vez mais saudoso José Figueiredo. Os últimos anos foram passados entre o recolhimento e uma patética tournée mundial com Di Stefano, em que ambos eram já uma pálida imagem do que haviam sido. Os comprimidos, esses falsos amigos, eram o resto da companhia. Em Paris, a 16 de Setembro de 1977, Maria Callas, numa súbita vertigem, entrava definitivamente na eternidade que a consagrou e puniu.

16.9.04

O LABIRINTO

A irmã do Padre João Seabra começa mal a sua missão patriótica. A paródia da "colocação dos professores" é digna do melhor Almodovar. Para efeitos oficiais e de cobertura televisiva, o ano lectivo começa hoje. Não custa nada abrir uns portões e umas portas de salas de aula, meter lá para dentro a rapaziada e sorrir. É assim que os anos escolares são inaugurados. Por detrás desta encenação grotesca, o panorama é invariavelmente o mesmo. Parece, aliás, que desta vez é um bocadinho pior. Não percebo como é que se pode pretender dar lições à administração pública e apoucá-la perante a sociedade portuguesa, quando os principais "responsáveis" por ela não conseguem pôr de pé um "método". Os antecessores da Dra. Carmo Seabra saíram indemnes como entraram. Os que os antecederam também. Aparentemente ninguém faz uma mínima ideia do que fazer. Entretanto o registo da "qualificação", que tanto preocupa a segunda versão desta gasta maioria, vai cedendo perante o conformismo banalizado e a balbúrdia. A culpa é sempre do "sistema", seja lá ele qual for, mesmo quando não há nenhum. Este original "caminho para a escola", que se repete fastidiosamente todos os anos, transformou-se simplesmente num sórdido labirinto onde não se conhece qualquer saída.