4.10.14

O "superior interesse nacional"


 


O Expresso, que em tempos designei pela "bíblia do regime", fornece-nos na edição deste sábado um extraordinário retrato do dito regime. Sem nunca verdadeiramente ter abandonado a "democracia", a plutocracia domina. Do "caso BES" ao "caso submarinos/Pandur", do "caso "Tecnoforma/CPPC" ao "caso Citius" passando por esse descalabro inominável que responde pela sigla Crato, dá ideia que a coligação - que é, pormenor porventura secundário, o "governo de Portugal" - entrou num declínio irreversível apesar da generosa teimosia do dr. Passos. Até uma comissão parlamentar de inquérito veio ampliar o buraco negro em que a "situação" vive, com um relatório de 400 páginas apenas destinado a fingir que nada se passou de extraordinário em matéria de "aquisições militares" e de contrapartidas de há cerca de catorze anos para cá. Especialmente há dez quando o dr. Portas morava no Forte de São Julião da Barra com vista para o Tejo e tudo. Julgo que até o dr. Nuno Melo, cuja prestação na comissão de inquérito parlamentar ao BPN foi amplamente meritória, esteja corado de vergonha com esta publicidade política indirecta ao velhinho "Omo lava mais branco" presidida pelo seu correlegionário Telmo Correia. Depois, como se o país estivesse "bem, muito obrigado, e recomenda-se", PSD, CDS, primeiro-ministro, vice e ministros aliviam-se na praça pública, directamente ou por interpostos jornalistas amigos, uns contra os outros. "Não queres baixar o IRS? Então toma lá mais um bocadinho de Tecnoforma". "Andas a falar de mais em reduzir os impostos mesmo com essa treta da "moderação fiscal"? Toma lá com o Trident e um Pandur para amostra". Edificante, não é? Como se isto não bastasse, um secretário de Estado, o dr. Castro Almeida dos "fundos", entregou a privados a escolha dos gestores que hão-de encarregar-se da distribuição da boda como se a administração pública, de que ele faz parte enquanto gestor político, não existisse. Não muito longe desta peça, o artigo de Miguel Sousa Tavares sobre o livro "Os Facilitadores", de Gustavo Sampaio, parece tragicamente comentá-la. Finalmente, e depois de uns tímidos sinais emitidos em pequenas comarcas (5%), o Citius prossegue, de mãos dadas com a dra. Teixeira da Cruz, o seu caminho das pedras. De Crato nem vale a pena falar porque os factos criados por ele falam por si. O Doutor Cavaco, quando o apertam com estas "minudências" (a falência trágica de um sistema e de um regime à conta destas mesmas "minudências"), costuma esclarecer que só se move pelo "superior interesse nacional". Onde é que o Doutor Cavaco vislumbrará o "superior interesse nacional" nas manobras alarves desta gente?

1 comentário:

Carlos Vargas disse...

O Doutor Cavaco implodiu e ainda ninguém lhe disse. Brilhante síntese do estado do artesanato, João Gonçalves.